Redes Sociais

Marcelo Harger

Opinião: Seguindo em frente

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Seguindo em frente”.

• atualizado em 19/10/2018 às 14:25

Em minhas andanças por esse mundo afora conheci Alberto Braga. Descendente de portugueses que tiveram o auge familiar durante o ciclo da borracha, hoje, Braguinha, como é conhecido na comunidade de Santa Isabel do Rio Negro, é um ribeirinho. Mora nas margens do Rio Negro em uma localidade chamada Temendauí. Vive da pesca e da extração de piaçaba.

Tem oitenta e um anos e sentiu-se honrado quando desci da lancha para conversar com ele, dizendo que é “bom conversar com um homem de presença”. Mal sabia ele que ali eu era o aluno e ele o professor. Contou-me um pouco de sua vida e foi suficiente para dar-me uma lição.

Percebia-se pelo linguajar que era pessoa diferente dos demais ribeirinhos. O linguajar era mais culto, talvez fruto de o idioma aprendido na infância ser o português de Portugal. Contou-me que viajou ao Pará para morar com os tios e estudar. Com orgulho disse que “tirou o ginásio”, e foi escoteiro.

Na época, segundo ele, o seu tio era primeiro tenente do exército, diretamente subordinado ao capitão Castelo Branco. O capitão era também o chefe da tropa de escoteiros e tinha pelo jovem um carinho especial. Era por ele chamado de caramuru, por falar tupi-guarani. A afinidade era tamanha que o tio e o capitão conseguiram para Braguinha vaga em um colégio militar no Rio de Janeiro.

Braguinha recusou a oportunidade e preferiu voltar para o local onde nascera, às margens do Rio Negro. Arrepende-se da escolha, feita não se sabe por qual razão. Afirma com firmeza que chutou a própria sorte com os dois pés, e só foi perceber isso quando o “chefe dos escoteiros” Castelo Branco tornou-se presidente.

Ao ouvir aquele simpático senhor lamentar a decisão tomada mais de sessenta anos atrás, matutei acerca das escolhas que fazemos na vida. Cada escolha fecha algumas portas e abre outras, mas regressar é impossível. O caminho é sempre em frente. Do passado leva-se apenas o aprendizado. Ninguém dá certo ou errado. Diante da quantidade de portas que temos para abrir em nossa vida, é muito mais fácil errar do que acertar. Viver é belo, porém amedrontador. Somente vemos o que estamos preparados para ver, e Braguinha viu a oportunidade muito depois que ela havia passado. Do alto de sua sabedoria, no entanto, ensinou-me que na vida não existe vitória ou derrota. Existe apenas o que vivemos, e o que deixamos de viver e nada podemos fazer a não ser seguir em frente.

leia também

Marcelo Harger

Opinião: Passarinhando em liberdade

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Passarinhando em liberdade”

Liberdade é algo que não se define. Vive-se. Senti-la é fácil. Explicá-la é difícil. Há quem prefira dizer que é um sentimento. Para esses, seria sentir o que se deseja independentemente da opinião dos outros. Há quem foque a liberdade de pensamento, e afirme que ser livre é pensar o que se quer. Essa é a linha Gandhi, que ensinava que “a prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência”.

Outros salientam a liberdade de expressão, e afirmam que ser livre significa o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir. Voltaire celebrizou essa espécie de pensamento ao declarar: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”.

Liberdade é tudo isso e mais um pouco. É impossível traduzir em palavras aquilo que somente se pode sentir. É como se fosse o oxigênio da alma, e esse é o grande problema.

Uma alma oxigenada “faz poeira”. Aqueles que têm medo da bagunça logo optam pela “arrumação”. Atacam com metralhadoras pessoas que em sua defesa apenas tem a palavra.

É que liberdade é uma daquelas coisas que são atraentes enquanto promessas, mas se tornam enlouquecedoras quando efetivamente se cumprem. Ser livre ofende, e há pessoas agredidas ao redor do mundo pela injúria de serem excessivamente livres. Outras são presas pela mesma razão.

Bater e prender não adianta. A opressão é como água em estrada de terra. Reduz a poeira, mas não resolve o problema. Basta um dia de sol para que ela ressurja com ainda maior vigor. Liberdade se combate com liberdade.

Aqueles que pensam somente são subjugados por argumentos, jamais por impedimentos. Tornam-se mais livres quando cercados por muralhas, e valorizam ainda mais aquilo que perderam. É por isso que os maiores escritos sobre a liberdade foram feitos no cárcere. O preso de consciência passa a ter unicamente o objetivo de perpetuar a sua liberdade de pensamento. É certo que a tirania nunca dura para sempre. Parafraseando o poeta Mário Quintana, todos aqueles que ficam por aí atravancando o caminho passarão. Os demais passarinham.

Continua lendo

Marcelo Harger

Opinião: Tédio ou Sofrimento

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Tédio ou Sofrimento”

• atualizado em 10/05/2019 às 11:15

Assisti recentemente a um filme no qual um menino começava a estudar filosofia e soltava frases de efeito na frente dos pais. Ao ser enviado para fazer os seus deveres escolares, o menino reclama: isso é um tédio! Em seguida cita uma frase filosófica dizendo que: na vida temos que escolher entre o tédio e o sofrimento.

O pai de chinelo na mão retruca prontamente: você quer o sofrimento? O menino obviamente opta pelo tédio e vai fazer os deveres.

Ao ver esse episódio, lembrei-me imediatamente de um ensinamento que desde cedo me foi ministrado pelo meu pai. Há coisas que tem que ser feitas independentemente de gostarmos ou não. Fazer o que se gosta muitas vezes significa apreender a gostar do que se faz.

Tarefas difíceis podem ser feitas com prazer ou sem prazer. Terão que ser feitas do mesmo jeito. Não há opção. Reclamar apenas serve para atrapalhar, pois a reclamação reforça a resistência interna que já temos. Se algo é chato ou difícil é melhor executar logo. Fazer por primeiro serve para acabar logo com o sofrimento. O espírito deve sempre ser o de transformar o limão em uma limonada.

Ninguém consegue passar uma vida inteira sem quaisquer problemas. Não há como remediar esse fato. É um dado da vida. É ela que não tem remédio. Reserva momentos bons e ruins para cada um de nós. Algumas vezes gostaríamos de encontrar um propósito para os problemas. Gostaríamos de ter a certeza de que alguém está apenas a nos ensinar uma lição e que tudo ficará bem no futuro. Isso, contudo, é impossível de se saber. É certo que coisas ruins acontecem às pessoas boas. Usar o que nos acontece como motivação para a evolução pessoal, no entanto, depende de cada um.

É certo que diante de cada dificuldade o pior obstáculo é o próprio ser humano. Cada homem é o pior inimigo de si próprio. Ter essa percepção abre novas possibilidades para enfrentar os problemas. Encarar é o único modo de vencer a “corrida”. Fugir somente serve para que fiquemos para trás e há quem fique tão atrás que acha que está liderando.

Continua lendo

Marcelo Harger

Opinião: Vivendo a milhão

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Vivendo a milhão”

Bom é viver a mil. A mil é pouco? Então a milhão. Nos dias de hoje a palavra de ordem é adrenalina, agitação. Sentir emoção não basta. Tem que ser forte, imensa, arrebatadora. Senão não vale. E para manter o padrão tem que aumentar cada dia. Viver um amor não é suficiente. Tem que ser um grande amor e os gestos de amor enormes. Uma flor não serve. Começa com um buquê e vai crescendo até que seja um caminhão.

Sobra exagero. Falta simplicidade. Sobeja exigência. Escasseia a sensibilidade. Agir é sempre com impulsividade, jamais com moderação. Sobra ímpeto, falta prudência. Carpe diem. Aproveite o dia é o lema, mas há muito carpe para pouco diem.

O mote é abaixo a rotina. E ela realmente veio abaixo, mas deu a volta por cima. Quando não há rotina a falta dela torna-se rotineira e ela ressurge vitoriosa.

Traz consigo para comemorar a vitória alguns amigos: cansaço, medo, ansiedade e depressão.

Cansaço por haver esforço demais. Falta energia para suportar nas costas o peso de tanta emoção.

Medo de não conseguir manter o padrão. De não atender as expectativas. De nem mesmo saber o que fazer para impressionar depois de encher de flores um caminhão.

Ansiedade porque o dia está correndo e é preciso aproveitá-lo. Já passou um minuto e ainda não se fez nada diferente. A rotina esta vindo, a rotina está vindo! Rápido, rápido é preciso sair de casa. E essa correria torna-se o dia a dia.

Depressão. Tristeza profunda, porque a vida parece vazia, sem significado. Sem futuro e sem passado. Sem marcas do que se fez de bom. Sem perspectivas pra o futuro.

É falta de lirismo, de saborear pequenos momentos. Não é possível ver o sol se por com pressa. Há coisas que não tem preço. Parece propaganda de cartão de crédito, mas é verdade. Aquele papo gostoso em família. A risada de uma criança. Caminhar na chuva. O beijo há muito esperado. Os momentos deitados em uma rede. Os filmes vistos nos dias de chuva. O som simples e singelo de um violão na beira da praia. Passear de mãos dadas. A poesia mal escrita, mas mesmo assim tão linda. Nada disso é tão imenso, mas é profundo. Instantes que duram a eternidade.

Continua lendo