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Marcelo Harger

Opinião: Azar o teu

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Azar o teu”.

As crianças tem muito mais sabedoria do que os adultos. Falo isso por ter presenciado uma das maiores lições de tolerância que alguém pode receber. Ela foi dada por dois pequenos, que tinham entre quatro e cinco anos. Um deles era judeu e o outro católico. A menina católica diz ao menininho judeu que devemos rezar para Jesus nos proteger todas as noites. O rapazinho responde que não pode porque a mãe dele não deixa. Longe de demonstrar surpresa, a menina prontamente responde: azar o teu.

Não é preciso dizer que ambos continuaram a brincar como se nada tivesse ocorrido. Realmente, nada de relevante ocorreu. As crianças percebem isso. Vêem que a crença religiosa do amiguinho não o torna uma pessoa pior ou melhor. É apenas uma característica com a qual ela convive sem qualquer problema.

Infelizmente os adultos não são assim. Estão sempre prontos a crucificar uns aos outros pelas mínimas diferenças. Algumas vezes é a religião. Outras a cor da pele. Em outras, ainda, a opção sexual. Se tiver as três diferenças juntas, então é imolação na certa.

O ser humano por alguma razão tem uma grande dificuldade em respeitar as diferenças. É algo paradoxal porque a natureza humana é tão complexa que impossibilita duas pessoas completamente iguais. Mesmo assim, o diferente incomoda.
Após milhares de anos de existência não conseguimos respeitar a verdade alheia como gostaríamos que a nossa fosse tolerada. Não conseguimos absorver o ideal de Voltaire que dizia que mesmo que não concordasse com uma única palavra do que dizia o seu interlocutor, morreria para defender o direito deste em manifestar a sua opinião.

Essas são reflexões que devemos fazer pois o mundo de hoje exige diversidade. Devemos aprender a tolerar o modo de ser alheio, se quisermos que o nosso também seja tolerado. Para quem quiser ser diferente, vamos dizer apenas “azar o teu” e seguir em frente. Quem não respeita não pode exigir ser respeitado. Os tempos mudam e as pessoas devem se adequar a eles. Se não o fizerem azar o nosso.

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Marcelo Harger

Opinião: Jurassic Park

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Jurassic Park”

Levei as crianças para passear na pacata cidade de Pomerode, próximaa Joinville. Passeio ótimo para um sábado ensolarado. Visitamos o jardim zoológico aonde vimos leões, tigres, zebras, ursos, hipopótamos e outros animais.

Martina arregalava os olhos para tudo e Pedro queria ver os pinguins. Saindo do zoológico visitamos o maior ovo e a maior árvore de páscoa na “Osterfest”, festa municipal comemorativa da páscoa.

O ponto alto, no entanto, foi o parque dos dinossauros. Ponto alto, por várias razões. Em primeiro lugar porque as crianças adoraram. Em segundo lugar porque havia brinquedos daqueles nos quais as crianças sobem, e ficam andando entre obstáculos nas alturas. Pedro foi logo subindo.

A Martina, de dois anos, não ficou atrás. Quando percebi já havia subido. Como todos sabem, não basta ser pai, tem que participar. Lá fui eu subir no tal brinquedo para cuidar da pequena, que dava gritinhos de felicidade.

Eu segurava os “ai meu deus” e “minha nossa senhora” tentando acompanhar a pequenina. Embora a placa dissesse que os adultos podiam se divertir também, o brinquedo não era feito para gente grande. Era preciso andar curvado ou engatinhar. Tive dor nas costas, no ciático e até “dor de cabelo”. Há quem diga que cabelo não dói. Para mim não doía até andar naquele brinquedo. Quem nunca sentiu dor de cabelo é porque nunca se sentiu dolorido de verdade.

Brinquei com a pequena durante os trinta minutos mais longos de minha vida. Quando minha esposa fez o sinal de “vamos embora” surgiu o último problema: como descer daquela geringonça. O melhor caminho foi um escorregador de tubo verde e cheio de voltinhas. Cheguei ao chão desconjuntado, mas vivo. Isso é o que importa. Na saída do parque, ao ver as estátuas de dinossauros lembrei-me do filme Jurassic Park. Os atores faziam cara de corajosos ao enfrentar os bichos. Queria vê-los em Pomerode. Tenho certeza de que a cara seria de desespero.

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Marcelo Harger

Opinião: A melhor missa da minha vida

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “A melhor missa da minha vida”

Fazia tempo que não entrava na catedral. Entrei observando e vi as mesmas paredes de concreto, os mesmos bancos de madeira da época em que fiz catequese. Vi o padre Bertino conversando com algumas pessoas. Tinha o mesmo ar de homem santo de que eu me lembrava.

Fui com toda a família. Mãe, pai, irmã, esposa e filho. Era a primeira vez que levava o Pedro na igreja. Havia também avó, cunhado e tios. Estavam todos presentes para uma benção em virtude das bodas de prata de meus pais.

Quando a missa começou não consegui prestar atenção. A música parecia um zumbido ao longe. As orações soavam como um tímido barulho. Fiquei parado, quieto e quase em transe. Olhava vidrado para o Pedro que dormia no meu colo.

Acariciei seus cabelos, beijei a testa, peguei naquelas mãozinhas tão lindas e pequenas. Olhei para a boca tão perfeita e para a pele branquinha, sem qualquer mancha. Dormindo parecia um bebê, e não o menino sapeca que vive correndo pela casa. Meu coração encheu-se de amor.

Embora não prestasse atenção à missa senti-me em verdadeira comunhão com Deus. Somente um ser divino poderia criar algo tão perfeito quanto o pequeno ser, que estava ali em meus braços a dormir em meio aos cânticos religiosos.

Lembrei-me de como a minha vida mudou para melhor desde que o Pedro nasceu. Ele trouxe sentido para a vida. Um norte. Uma direção a seguir. Tornou-me um homem melhor.

A responsabilidade pela vida de um ser tão indefeso e ingênuo fez com que as escolhas fossem mais pensadas. A virtude tornou-se mais do que um dever. Transformou-se em uma obrigação. Ele certamente terá por espelho minhas atitudes. É um pequeno repetidor de tudo o que eu e minha esposa fazemos.

Decidi rezar. Rezei com o coração. Foi uma prece tão profunda como nunca havia feito antes. Pedi sabedoria para orientá-lo em meio às dificuldades da vida. Orei pedindo discernimento para conduzi-lo pelo bom caminho. Coloquei o destino do Pedro nas mãos de Deus e, quando finalizava a oração, a missa terminou. Não prestei atenção em nada do que ocorreu. Essa, contudo, foi a melhor missa de toda a minha vida.

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Marcelo Harger

Opinião: A lógica do vício

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “A lógica do vício”

Recentemente ouvi uma história horrível. Um advogado renomado no nordeste do país recebeu um ultimato de seu médico: deveria parar de fumar e ingerir bebidas alcoólicas porque complicações vasculares poderiam fazer com que tivesse as pernas amputadas.

O paciente que recebeu a terrível notícia é pessoa extremamente inteligente e esclarecida. Faço essa observação, porque a conduta que se espera de alguém com essas características, ao receber notícia tão drástica, é parar imediatamente de fumar e beber.

Não foi isso que fez o cidadão em questão. Passou a calcular o tempo que utilizava as pernas e fez uma conta estarrecedora. Passava oito horas dormindo, nove horas sentado trabalhando no escritório, uma hora sentado almoçando, uma hora sentado jantando, duas horas assistindo televisão, sentado, uma hora no trajeto ida e volta para o escritório também sentado no carro.

Observou também que as duas horas restantes eram gastas alternadamente entre momentos sentado e em pé. Chegou a conclusão de que preferia continuar a beber e fumar porque poderia prescindir dos poucos minutos diários nos quais utilizava as pernas. Criou uma justificativa lógica para justificar o fato de que brevemente teria as pernas amputadas e passaria o restante da vida em cadeira de rodas.

O interessante é que jamais reconheceu que o vício era mais forte que ele. Sempre afirmou que era uma escolha consciente, e que poderia largar o fumo e o álcool no momento em que quisesse. Não o fazia porque preferia o prazer que eles lhe proporcionavam à parte não importante de seu corpo representada pelas pernas.

Vício é algo terrível para todos, mas é pior quando ocorre nas pessoas inteligentes. Racionalizam a própria dependência para justificar algo que diante dos outros é bizarro. É a lógica do vício, que somente consegue ser superada a partir do momento em que o viciado consegue perceber que tem um problema. Antes dessa percepção qualquer esforço dos familiares e amigos é vão. Resta apenas rezar para que adquiram a consciência antes de perderem as próprias pernas.

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