Uma comerciante da Região Metropolitana de Belo Horizonte afirma ter perdido uma geladeira e uma televisão após não conseguir quitar uma dívida contraída com agiotas colombianos. O caso expõe como empréstimos informais, divulgados por meio de redes sociais e panfletos distribuídos nas ruas, podem levar vítimas a um ciclo de endividamento marcado por juros abusivos, ameaças e intimidações.
A identidade da mulher foi preservada por questões de segurança. Ela contou que conheceu os agiotas após receber um cartão publicitário e decidiu recorrer ao empréstimo por causa da facilidade para conseguir o dinheiro.
“Eles falam que os pagamentos são diários. Eu peguei R$ 1 mil para pagar R$ 60 por dia. Depois peguei R$ 500, depois R$ 2 mil. Achei que conseguiria vender mais e quitar tudo, mas fui me enrolando”, relatou.
Segundo a comerciante, quando deixou de pagar uma das parcelas, passou a ser ameaçada pelos cobradores.
“Eles falavam: ‘Não quero saber dos seus problemas, não quero saber se a loja está fechada. Eu quero o meu dinheiro'”, afirmou.
Ela diz que os agiotas chegaram a retirar bens da residência para reduzir parte da dívida.
“Eu estava devendo R$ 4.800 para um colombiano. Ele levou uma televisão de cerca de R$ 3.500 e uma geladeira nova, avaliada em aproximadamente R$ 4 mil”, contou.
Esquema investigado
O relato integra um conjunto de denúncias investigadas pela Polícia Civil de Minas Gerais. Mais de 300 pessoas da Grande BH procuraram a corporação afirmando terem sido vítimas de quadrilhas de agiotas que cobravam juros diários de até 30% e utilizavam ameaças, perseguições e violência para forçar o pagamento das dívidas.
Segundo as investigações, os grupos faziam rondas em frente às casas e aos locais de trabalho das vítimas, pichavam muros, divulgavam fotos e dados pessoais nas redes sociais e, em alguns casos, tomavam bens à força. Em uma das ocorrências apuradas, uma mulher chegou a aparecer em uma publicação com o cabelo raspado e uma arma apontada para a cabeça.
Em maio, uma operação da Polícia Civil prendeu 14 suspeitos de integrar as quadrilhas e apreendeu mais de 60 veículos utilizados nas cobranças. De acordo com a investigação, os grupos eram formados por brasileiros, colombianos e venezuelanos e tinham como principais alvos pequenos comerciantes e mulheres que moravam sozinhas.
Embora emprestar dinheiro não seja crime, a prática da agiotagem é ilegal quando envolve cobrança de juros abusivos, exploração econômica e métodos criminosos de cobrança. Conforme a Polícia Civil, o objetivo das quadrilhas era manter as vítimas presas a um ciclo de endividamento, utilizando intimidação e cobranças constantes para dificultar a quitação dos empréstimos.
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