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Marcelo Harger

Opinião: Diferenças Culturais

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Diferenças Culturais”

Li, recentemente, uma lista na qual um americano, casado com uma brasileira, relatava as razões pelas quais detestou o Brasil. Lamentei o fato de não ter gostado de nosso país, porque gosto dos americanos.

Compreendo que ele se espante com a má qualidade dos serviços públicos, e com a corrupção. Os brasileiros também não gostam disso e estão lutando para melhorar.

As críticas que faz aos nossos costumes e à nossa gente, no entanto, decorrem do grande defeito que vejo na maioria dos americanos: eles querem que o resto do mundo seja igual a eles. Existe o jeito americano de ser e o jeito errado. Essa arrogância é um pecado terrível.

O Brasil é o quinto maior país do mundo. O gringo visita umas capitais e acha que conhece tudo. Chega ao ponto de falar que no Brasil faz calor o ano inteiro. O pessoal que mora em São Joaquim agradece. Agora podem tirar os casacos porque o americano disse que só tem calor por aí.

O cidadão vem de um país onde tudo é enlatado, só se come fast food, mas reclama que faltam sabores por aqui? Quando visitei os EUA fiquei encantado por descobrir uma nova cultura. Percebi que são muito práticos, e a praticidade se reflete até mesmo na comida. Não é ruim. É apenas diferente. Será que ele experimentou as frutas típicas do nordeste? Será que comeu pinhão? Será que provou uma moqueca? Certamente não. Essas coisas não existem nos Estados Unidos e, por isso, provavelmente têm um sabor terrível.

Reclamou que as mulheres brasileiras são obcecadas com o próprio corpo. É mais uma diferença cultural. Nos EUA vi muitas mulheres vestidas com roupas que seriam repudiadas por qualquer esquadrão da moda brasileiro. Não deixei de gostar do país por causa disso. É o jeito de ser da americana. Cada um tem seu gosto, e isso é natural. Apenas estranhei que o “reclamão” casou-se com uma brasileira.

Queixou-se, ainda, que a proximidade da esposa com a família complicava o casamento. Para atrapalhar o casamento certamente é problema de sogra. O gringo que me desculpe, mas sogra é problema universal. Consigo imaginar a mãe da brasileira perguntando para a filha: como você foi casar com um americano tão chato? Aparentemente, nesse caso, a sogra tem razão.

Colunista do Por Dentro de Minas. Marcelo Harger, advogado, escritor, membro da Academia Joinvilense de letras, mestre e doutor em direito público.

Marcelo Harger

Opinião: Maturidade

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Maturidade”

A idade traz experiência. É verdade. Traz também “experiências” que se incorporam ao nosso inconsciente como pequeninos softwares. Surgida uma situação similar àquela que já vivenciamos, o programa tem início. Lembramos-nos dos momentos bons que vivenciamos como se estivéssemos revivendo os momentos passados. Chegamos a ouvir sons, sentir gostos e cheiros.

O problema é que esses pequenos softwares não trazem apenas coisas boas. Trazem também momentos tristes e lembranças ruins. Não é possível desligá-los. Nem mesmo sabemos com exatidão o que os faz funcionar. Pode ser um cheiro, uma música, um lugar, uma pessoa, um gesto, um sorriso, uma paisagem ou um quadro. Normalmente são coisas que não ocasionam perigo, mas por alguma razão servem de detonadores de bombas emocionais que arrasam o nosso coração.

Trazem para o presente a tristeza, a angústia e o medo sentidos no passado. Voltam com força total e de maneira irracional acabam por motivar as nossas ações. É o passado comandando o presente e condicionando o futuro.

Infelizmente não somos computadores. Não é possível formatar o HD e implantar novamente todo o sistema operacional. Temos que aprender a conviver com esses programinhas mal intencionados e procurar utilizá-los a nosso favor. As lembranças tristes e ruins servem de alerta para não repetirmos os erros passados. Apenas precisamos retirar o automatismo que esses softwares implantam em nossas condutas. Precisamos temperar a força do sentimento com o poder da razão e utilizar ambos para fazer as nossas escolhas.

Essa é a grande mágica de envelhecer. Lentamente passamos a aprender a usar a informática da vida. Passamos a identificar os softwares que iniciam automaticamente e instalamos outro programa. Ele não apaga os demais. Apenas impede que comandem automaticamente nossas ações. Eles passam a piscar na tela do “nosso computador” alertando para situações potenciais de perigo. O novo software passa a exigir um comando do operador para que os demais entrem em funcionamento. Infelizmente ele não se encontra nas prateleiras para ser adquirido e tem um fornecedor exclusivo: o tempo. Ele se chama maturidade.

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Marcelo Harger

Opinião: Dúvidas

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Dúvidas”

Antigamente as possibilidades de escolha eram menores. A profissão a ser seguida, quando o filho fosse homem era a do pai. As mulheres seriam donas de casa. Casar era uma obrigação, e a escolha do parceiro ideal era feita pela família. Havendo uma única opção o sofrimento causado pela dúvida inexistia. Inexistia também a culpa por escolher errado e a responsabilidade pelos próprios atos.

O mundo moderno trouxe uma maior liberdade para o ser humano. A quantidade de opções que temos em nossa vida torna o ato de decidir cada vez mais difícil. São tantas as opções que muitas vezes estacamos diante das escolhas mais básicas. Até mesmo comprar uma calça jeans pode tornar-se um sacrifício diante de tantas marcas e modelos.

A quantidade de opções ocorre também em relação às coisas mais sérias. Que profissão seguir? Casar, permanecer solteiro ou em união estável? É muito difícil que alguém tenha completa certeza quando faz escolhas desse tipo e o excesso de opções causa angústias.

É natural que isso ocorra, pois como ensinava Baltazar Gracián em a “Arte da Prudência”, é perigoso fazer algo de que a própria prudência duvida. Indagava, ainda, como poderia dar certo aquilo que, logo depois de pensado, já desperta receios? E concluía afirmando que o mais seguro seria nada fazer, porque os maus prognósticos normalmente se confirmam.

Embora esses conselhos devam ser respeitados, jamais poderão ser aceitos como uma verdade inatacável em todas as situações. Ser prudente não é o mesmo que ser omisso. Deixar de agir quando a ação era obrigatória pode causar mais prejuízos do que agir equivocadamente.

É necessário ter em mente que as dúvidas são inerentes aos seres humanos. Não há quem nunca tenha hesitado diante de uma decisão importante a ser tomada. Não é possível saber de antemão o resultado de cada escolha. É possível, no entanto, utilizar uma regra básica da filosofia chinesa para nos ajudar a escolher. O melhor curso de ação é sempre aquele que nos deixa sem culpa nem arrependimento. Agindo desse modo, mesmo quando as coisas derem errado, será possível dormir em paz.

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Marcelo Harger

Opinião: Em quem confiar

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Em quem confiar”

O Estado é um mal necessário. É impossível imaginar uma vida organizada em sociedade sem a presença dele. Por outro lado, os maiores abusos aos direitos e garantias individuais dos cidadãos são praticados por agentes estatais. Nessa categoria incluo não apenas os agentes do Executivo, mas também integrantes do Legislativo, Judiciário e Ministério Público.

Não se trata de uma peculiaridade brasileira. Montesquieu já havia percebido que os agentes estatais abusam de seus poderes e, por isso, criou a sua célebre teoria da tripartição dos poderes, por intermédio da qual o poder limitaria o poder mediante a distribuição das funções de administrar, julgar conflitos e legislar para órgãos diversos.

É preciso lembrar essa realidade quando se analisa o projeto de lei de abuso de autoridade recentemente aprovado pelo congresso, e que está em vias de ser sancionado ou vetado pelo presidente da república. É necessário superar o bordão “querem acabar com a lava jato”, pois isso mantém a discussão no plano mais raso.

A lava jato é apenas uma operação. O projeto de lei, contudo, tem aplicação muito mais ampla. Destina-se a trazer responsabilidade para aqueles que responsabilizam os outros. É interessante a gritaria que o projeto gerou por parte de membros do ministério público e juízes, que respectivamente acusam e condenam pessoas aplicando leis cujo conteúdo tem o mesmo grau de generalidade que o projeto que criticam.
As mesmas pessoas, no entanto, defendem as 10 medidas contra a corrupção e o pacote anticrime, que possuem previsões que conferem ao Judiciário e ao Ministério Público poderes incomensuráveis. Há dois pesos e duas medidas. Para o cidadão vale o rigor da lei. Para os agentes estatais, apenas as benesses.

É preciso notar, ainda, um aspecto relevante. É que, independentemente do conteúdo da lei, quem vai acusar e julgar são o Ministério Público e o Poder Judiciário. Será que essas instituições não confiam em seus próprios integrantes para aplicar a lei? Eu, como advogado, preciso acreditar que as decisões serão sempre justas, pois somente posso continuar a advogar confiando no bom senso dos promotores e juízes. Confesso, no entanto, que diante das reações das instituições de classe dessas categorias fiquei com minhas convicções abaladas. É difícil confiar em alguém que não confia em si próprio.

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