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Marcelo Harger

Opinião: Fazer e criticar

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Fazer e criticar”

O crítico é uma galinha que cacareja enquanto todas as outras colocam ovos. Quem sabe faz. Quem não sabe critica. Há pessoas que se preocupam em construir. Outras em achar defeito.

É assim infelizmente que as coisas são. O fato é que tudo pode ser bom ou ruim de acordo com a opinião de cada um. Aquilo que uns buscam com fervor outros evitam. Por isso, aquele que deseja que tudo ocorra de acordo com a sua cantilena é um tolo insuportável. Os gostos são tantos quanto os rostos.

Se algo que fazemos desagrada alguns, certamente será apreciado por outros. O inverso também é verdadeiro. O certo é que nunca poderemos agradar a todos.

As críticas jamais deverão servir como forma de desestímulo, mas sim como incentivo. Ninguém chuta cachorro morto. Criticar é elogiar pelo avesso. Mostra que os nossos atos importam. É assim que devemos pensar. Oscar Wilde já afirmava que a cada boa impressão que causamos conquistamos um inimigo e ensinava como sermos populares: basta sermos medíocres. Segundo ele perdemos amigos quando deixamos de sê-lo.

Isso ocorre em virtude da natureza humana. Quase todas as pessoas se compadecem com o sofrimento de um amigo, mas poucas são aquelas que conseguem ficar felizes pelos êxitos que ele conquista.

Normalmente quem mais critica é quem menos faz. Os que nada fazem têm tempo sobrando para incomodar os que trabalham. São como as cigarras da fábula. Passam o tempo a cantar, sem se preparar para o inverno. Quando este chega dependem do alimento das formigas para poderem se sustentar.

O fato é que o poeta já alertava ser preferível o ataque de uma borboleta pequenina aos beijos de um cavalo. Por isso, perdoe sempre os que te criticam. Faça isso não só por ser um preceito cristão, mas porque nada ofende mais aos pequenos de alma do que o desprezo pelos seus atos.

Colunista do Por Dentro de Minas. Marcelo Harger, advogado, escritor, membro da Academia Joinvilense de letras, mestre e doutor em direito público.

Marcelo Harger

Opinião: Eu morro também

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Eu morro também”

Recebo diversas mensagens religiosas pela internet. Algumas contam que John Lennon disse que os Beatles eram mais populares que Jesus, e foi assassinado logo em seguida. Outras que Tancredo Neves teria dito que se tivesse quinhentos votos de seu partido, nem Deus o tiraria da presidência da república, e ele faleceu antes de assumir. O mesmo teria acontecido com o Titanic, cujo dono, em entrevista para a imprensa, teria dito que nem Deus afundaria o seu navio e, como se sabe, o naufrágio acabou sendo a maior tragédia naval da história.

Essas mensagens, de um modo geral, procuram exaltar o poder de Deus. Concordo com a conclusão: Deus é poderoso. Discordo, contudo, das premissas. Obviamente nenhuma dessas frases foi um desafio a Deus. Foram modos de expressão para reforçar uma ideia. Algo parecido com a expressão “ai meu Deus”, que serve para reforçar uma ideia de medo, ou “juro por Deus”, que transmite a impressão de seriedade no que se está afirmando.

A frase de John Lennon, por exemplo, ressalta a perda de fiéis da religião cristã. Atualmente boa parte da população acredita que o cristianismo precisa se reinventar. Tancredo, caso a frase seja real, quis dizer que se tivesse quinhentos votos teria certeza de que venceria a eleição. O dono do Titanic tentou apenas reforçar a ideia de segurança do navio.

No meu entendimento, as tragédias apontadas não foram obra de Deus. O Deus em que acredito é muito melhor do que isso. Nem mesmo quando afrontado utilizaria a mesquinharia da vingança. Ele ensina a amar os inimigos, a fazer bem aos que nos odeiam, a bendizer os que nos maldizem, a orar pelos que nos insultam e, finalmente, a dar a outra face àquele que nos bate.

Embora essas considerações pareçam óbvias, achei melhor esclarecer, porque quando tive o privilégio de ser eleito integrante da academia joinvilense de letras, brinquei que agora seria “imortal”, recebi, imediatamente, uma nova mensagem dessa espécie. Por precaução, resolvi deixar claro, não para Deus, que tudo sabe, mas para as pessoas, de que eu morro sim. Quero me precaver em relação a algum doido que queira tirar “a prova dos nove”.

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Marcelo Harger

Opinião: Fascista sem saber

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Fascista sem saber”

Hoje em dia é comum ver as pessoas acusando umas às outras de fascistas. É um termo que serve para designar alguém de quem não gostamos. O termo acabou por degenerar num insulto genérico, sem um significado preciso.

Yuval Noah Harari faz uma bela reflexão sobre o tema no livro 21 lições para o século 21. Segundo ele a palavra fascismo vem do latim “fascis”, que significa feixe de varas. Uma vara isolada é fraca e pode ser facilmente quebrada. Quando estão juntas numa “fascis” é quase impossível quebrá-las. É por isso que se privilegia a coletividade em detrimento da pessoa. A união é poderosa. O indivíduo é fraco. Os interesses do grupo, unido sob o conceito de nação, deve preponderar independentemente de quaisquer circunstâncias sobre os interesses dos demais.

O problema é que a banalização do uso do termo faz com que o fascismo pareça algo ruim. Um verdadeiro monstro. O óbice é que se aparentasse ser um monstro ninguém seguiria a doutrina. É o mesmo erro que os filmes de Hollywood cometem ao apresentar vilões como Voldemort, lorde Sauron ou Darth Vader. Os três são homens feios e cruéis até mesmo com os seus apoiadores. Como seguir alguém assim?

Conforme alerta o autor, “o problema com o mal é que, na vida real, ele não é necessariamente feio. Pode ser muito bonito na aparência”. Essa é a dificuldade em resistir às suas tentações. É também por isso que é difícil lidar com males como o fascismo. Os alemães olhavam a nação alemã na década de 30 e a viam como a coisa mais linda do mundo. Perderam-se na beleza daquele coletivo inventado.

O culto a essa coletividade é sedutor porque simplifica o mundo. Dilemas difíceis tornam-se fáceis. É simples avaliar a arte: se atende os interesses do grupo é boa. É também fácil avaliar a educação: a adequada é a que ensina o pensamento da classe. E por aí vai…

Além disso, é extremamente atraente porque faz as pessoas pensarem que participam do que há de mais belo no mundo. Integram um ideal, uma ideia de mundo. Ao se olharem no espelho, enxergam algo belo e não o fascismo que todos dizem que é ruim. Entendem, por isso, que a postura que adotam não é fascista.

Isso está a ocorrer com muitos brasileiros que defendem o combate à corrupção a qualquer custo. O ideal é belo, mas se para atendê-lo precisam pisotear a Constituição e os direitos e garantias individuais, assim o fazem. Esquecem os horrores que os defensores de belas ideias praticaram. Tornam-se fascistas sem nem mesmo saber.

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Marcelo Harger

Opinião: Morrendo a cada dia

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Morrendo a cada dia”

O medo da morte é poderoso. As pessoas tudo fazem para amenizá-lo. Umas envolvem-se com pessoas mais jovens. Outras têm crises de meia idade. Há aquelas que ficam obsessivas com plásticas ou ginástica. Outras pretendem continuar a viver por intermédio dos filhos ou de suas obras.

Tão obcecadas ficam com a ideia de morrer, que esquecem de viver a vida. Preocupam-se com o inevitável. Não percebem que a idade pouco importa: a cada dia que passa estão mais perto da morte.

A vida é uma sequência de acontecimentos que se encerra com ela. Embora a vida termine o tempo vivido não se apaga. Ninguém sabe o que é a morte. Supomos que é o maior de todos os males e que os mortos têm uma grande recompensa: não morrer nunca mais.

Sócrates, contudo, ao ser defrontado com a condenação que lhe fora imposta não se incomodou. Ao ouvir de seu juiz que estava condenado a morte, prontamente respondeu: o senhor também. E indagou diante de todos que acompanhavam o seu julgamento se o que estaria prestes a lhe acontecer não seria um bem.
Julgava que havia três opções. A primeira é que morrer seria igual a nada e se essa fosse a opção correta, não haveria porque temer, pois não haveria sensação alguma. A segunda é que morrer seria como um sono eterno no qual o adormecido nada vê nem sonha. Nesse caso julgava ser uma vantagem maravilhosa, pois toda a duração do tempo nada mais seria do que uma noite. Finalmente considerava que poderia ser uma mudança de planos de existência. Aqui também só via benefícios e imaginava poder se encontrar com os grandes filósofos, estadistas, entes queridos e amigos já falecidos.

Certamente quem lê esse tipo de argumentação pensa que se trata de coisa de filósofo. Na verdade acho que Sócrates percebeu que morria no momento certo. Viveu enquanto viveu e após viver plenamente perdeu o terror pela morte. O medo some quando a vida foi amplamente consumida.

Sócrates viveu a vida, não foi vivido por ela. Foi ele quem a escolheu, não foi por ela escolhido. Amou cada instante porque cada um deles foi por ele querido. Recusou-se a lamentar pelas coisas que não fez e tendo vivido plenamente concordou em morrer apesar de ter a possibilidade de escapar ao seu destino.
É essa a lição que devemos extrair. A ansiedade que bate no peito do homem moderno é porque o coração está explodindo por toda a vida não vivida. Cada batida marca o tempo que se vai. O tempo é ávido. Devora a vida sem nada dar em troca, a não ser a angústia pelo que não fizemos. Sofremos ao encarar o inevitável, porque passamos a vida inteira seguindo os papéis que nos foram impostos sem jamais reivindicar a liberdade.

Ser livre faz o homem perceber que mesmo na velhice, quando a morte se aproxima, não é com ela que o ser humano se relaciona. A ideia de aproximação da morte é errada. Todo homem se relaciona com a vida até o fim.

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