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Marcelo Harger

Opinião: Artimanha

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Artimanha”

Nunca prestei muita atenção à pintura ou à escultura. Tinha muita dificuldade em encontrar sentido na arte abstrata. Recentemente, contudo, o meu ponto de vista mudou. Três foram as razões. A primeira foi o pensamento de Rubem Alves em seu livro “Ostra feliz não faz pérola”. Em síntese ele afirma que a arte se desprende do sentido imaginado pelo autor. Cada indivíduo estabelece uma relação única com as obras de arte e por isso uma mesma obra pode assumir significados diversos para diferentes intérpretes. Afirma ainda que as obras de arte não podem ser apreciadas com pressa.

A segunda foi uma observação de Oscar Wilde no prefácio de o retrato de Dorian Gray. Segundo o autor inglês, não devemos procurar sentido na arte porque toda arte é inútil. A arte tem relação com o belo e com os sentimentos e só.

Coincidentemente li os dois livros praticamente juntos e posteriormente tomei contato com a obra de Francisco Brennand. Esse artista plástico paraibano faz obras de arte, que inicialmente parecem esquisitas. Diversas formas de falos e corpos disformes. Na verdade foram centenas. Estava odiando a exposição até me lembrar dos pensamentos lidos recentemente.

Decidi me esforçar. Escolhi uma das estátuas mais esquisitas. Dois corpos disformes interpenetravam-se e eram unidos na parte de cima por um parafuso com duas “porcas borboletas”, uma em cada ponta. Na parte de baixo juntavam-se por um prego retorcido. Olhei para aquilo e decidi encontrar um sentido para mim. Dei tempo ao tempo. Não me preocupei com a utilidade daquilo. Procurei verificar o sentimento que evocava em mim.

Subitamente um lampejo. Tratava-se de um símbolo do amor, da paixão, do sexo. Os corpos se misturando mostravam o que sentimos quando amamos. Parece que somos uma coisa só. O parafuso vai sendo apertado cada vez mais forte pelas “borboletas” até que perdemos a nossa individualidade. Inicialmente sentimos prazer com tudo isso, mas a mesma fonte de prazer é a fonte da dor para ambos os corpos e é isso que o prego retorcido representa.

Não sei se a minha interpretação foi boa ou correta. Sei, contudo, a força com que aquele símbolo me transmitiu essa ideia. A imagem ficou gravada na minha mente. De hoje em diante parei de esculhambar essas artes modernas. Não sei o que tinha aquela escultura, mas para deixar uma impressão tão forte era mais do que arte, era artimanha.

Colunista do Por Dentro de Minas. Marcelo Harger, advogado, escritor, membro da Academia Joinvilense de letras, mestre e doutor em direito público.

Marcelo Harger

Opinião: Escolhas

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Escolhas”

Desde a infância tenho o hábito da leitura, mas foi somente “depois de velho” que pude ler alguns dos clássicos da literatura infantil. Surpreendo-me com os ensinamentos que esses livros trazem de forma quase imperceptível. O último deles foi “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carrol.

Há uma conversa interessantíssima entre Alice e o Gato. Ela pergunta como faz para sair dali, e o gato responde que isso depende de para onde ela pretende ir. Alice retruca que tanto faz, e o gato diz que nesse caso pouco importa o caminho que ela tome. Tentando se explicar, Alice acrescenta que o caminho não tem importância desde que chegue a algum lugar. O gato conclui a conversa dizendo que ela então andará bastante. Em outra passagem Alice relata que dava ótimos conselhos a si mesma, mas raramente os seguia.

Algumas vezes agimos em nossas vidas como verdadeiras Alices. Reclamamos que não chegamos a lugar algum, mas não temos uma ideia clara de onde queremos chegar. Queixamo-nos das dificuldades no caminho sem perceber que nenhum vento é favorável àquele que não tem direção.

Há até momentos em que sabemos o melhor rumo, mas agimos como se estivéssemos no país das maravilhas e desprezamos “os próprios conselhos”. Por alguma razão mágica, julgamos que eles servem para os outros e não para nós mesmos e seguimos rumando sem saber onde queremos chegar.

Não há problema em não ter direção desde que esse seja um ato de escolha consciente. A sabedoria popular de Zeca Pagodinho já ensinou: “deixa vida a vida me levar, vida leva eu. Sou feliz e agradeço por tudo o que Deus me deu”.

Escolhas desse tipo, no entanto, são excludentes. Para cada opção feita há outra que se fecha. Quando escolho um caminho abdico do oposto. O mesmo ocorre quando decido não ter rumo algum. Independentemente da opção que se tome, é importante reconhecer que cada escolha é um ato de vontade. É preciso perceber que somos responsáveis pela vida que levamos, e ter a coragem de admitir as consequências de nossas decisões.

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Marcelo Harger

Opinião: Gratuidades e Demagogia

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Gratuidades e Demagogia”

O transporte coletivo urbano de todo o país tem sido alvo de inúmeros projetos de leis municipais objetivando conceder gratuidades a parcelas específicas da população.

Há projetos das mais variadas espécies, desde aqueles que pretendem isentar os portadores do certos tipos de doenças até aqueles destinados a beneficiar categorias profissionais. Os projetos, via de regra, possuem uma meta bonita, que é evitar que pessoas que enfrentam algumas vicissitudes da vida, sejam oneradas com o custo do transporte. Normalmente a apresentação dos projetos é seguida de discursos inflamados e até mesmo de manifestações públicas organizadas pelos autores.

Essas pessoas esquecem, contudo, de informar à população três aspectos essenciais. O primeiro deles é que a legislação brasileira veda a concessão de isenções tarifárias sem que se estabeleça a origem dos recursos destinados à sanar a queda da receita. O segundo consiste no fato de que os projetos de lei que aumentam uma despesa pública devem ser de autoria do executivo. O terceiro consiste no fato de que as empresas concessionárias de serviço público não podem ser obrigadas a custear gratuidades, sem que o valor a ser suportado por elas seja repassado às tarifas.

Esses aspectos são importantes, porque os proponentes desse tipo de projeto normalmente fazem proposições, que sabem que não serão aceitas por seus pares, para que possam “fazer o seu comercial”. Acabam, na realidade, ganhando sempre apesar de proporem projetos de lei demagógicos.

Se o projeto de lei é aceito, são vistos como os grandes benfeitores da humanidade. Se o projeto é rejeitado ou a lei dele resultante é anulada pelo Poder Judiciário, esbravejam que não existe justiça no mundo e que são os únicos a defenderem os fracos e oprimidos. Se o valor é repassado para o custo tarifário, os mesmos aproveitam para lutar contra o alto custo das tarifas, que eles mesmos contribuíram a aumentar. A atitude lembra a do personagem de Chico Anísio “Justo Veríssimo”. Dizia o personagem em um famoso bordão: “O povo que se exploda o que eu quero é me eleger”.

Resta saber qual é o tipo de político que o brasileiro quer. Espera-se realmente que na eleição que se avizinha vençam os justos e percam os Veríssimos.

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Marcelo Harger

Opinião: Ano Novo

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Ano Novo”

Os finais de todos os anos são sempre parecidos. Parece que será o último de nossas vidas. Uma correria infernal. Aparentemente o capeta está solto no dia 31. Inicialmente olhamos as resoluções que fizemos para o ano que se encerra. Algumas são clássicas. Há quem coloque em suas resoluções fazer regime, parar de fumar e beber. É o que faz um grande amigo meu, que fica feliz ao ver que atendeu às próprias expectativas. Afirma sempre que cumpriu as suas resoluções, pois durante o ano que passou fez regime diversas vezes e também parou de fumar e beber outras tantas.

Resoluções de ano novo são assim. Refletem as nossas boas intenções para o ano que se aproxima. É como se a cada período de 365 dias estivéssemos prontos para um recomeço. Recomeçar efetivamente depende de cada um.

Acreditar que tudo irá mudar pela simples virada do ano é ingenuidade. Não é o ano que precisa mudar. Somos nós. Para termos um ano novo efetivo temos que merecê-lo. O ano novo verdadeiro está dentro de cada um e não em uma data específica. Não é preciso esperar o calendário para operar uma mudança de atitude. A data serve como um símbolo e nada mais. Cada dia que passa podemos dar início a um “novo ano” em nosso calendário interno.

Não é preciso uma lista para deixar mofando em uma gaveta. Tampouco adianta chorar pelas besteiras praticadas no ano que passou. É necessário seguir adiante. Certa vez uma tia-avó sábia, deu uma grande lição aos seus sobrinhos diante das adversidades. Dizia ela que a vida é como um livro. O passado são as páginas que já lemos. Aquele trecho da história já conhecemos, e não adianta voltar atrás porque não será mudado. Devemos seguir em frente, lendo o livro.

Lição importante, mas que merece um pequeno reparo. Ela vale para o passado. Não podemos mudar as páginas já escritas, mas em relação àquelas ainda não lidas, não somos meros espectadores. Não nos cabe o papel de ficar lendo mansamente a história. Na verdade somos os escritores. O futuro é uma página em branco. Cada um pode fazer o que quiser com ela. Podemos utilizar régua, esquadro e compasso e trazer coordenadas precisas para o nosso futuro, ou podemos desenhar a mão livre e continuar a utilizar constantemente a borracha do arrependimento.

Podemos escrever uma história de sucesso, amor e amizade, mas também uma verdadeira história de terror. Somos responsáveis pelo enredo, pois cada um tem a vida que escolheu viver. É certo que há dificuldades que não são criadas por nós, mas o modo de enfrentá-las depende de cada um. A boa e a má sorte constantemente se alternam na vida humana. Ninguém tem sempre a felicidade, tampouco viverá sempre na adversidade.

Certa vez um imperador pediu a um sábio duas frases lacradas em um envelope. A primeira para que ele pudesse ler no momento mais triste de sua vida e a segunda no momento mais feliz. Ao se deparar com o dia mais triste, abriu o envelope e leu a frase que encomendara: isso passará. No momento mais feliz abriu o segundo envelope e surpreendeu-se ao ler: isso também passará.

Parábola simples que retrata uma maneira sábia de encarar a vida. Ensinamentos como esses são repetidos nas canções de ano novo. Há uma que diz: marcas do que se foi, sonhos que vamos ter, como todo dia nasce novo em cada amanhecer. E outra que serve para encerrar definitivamente o ano e o artigo: adeus ano velho e um feliz ano novo a todos.

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