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Marcelo Harger

Opinião: Eleições

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Eleições”

No próximo ano teremos eleições municipais e todos os problemas serão resolvidos. Não haverá mais desemprego. Os problemas de segurança serão solucionados. Cada bairro terá um hospital. A água e o transporte coletivo serão praticamente gratuitos e o trânsito voltará a fluir melhor. São tantas as pérolas que há quem diga que nossos políticos não abrem as bocas, abrem as ostras durante a eleição.

A situação faz lembrar uma crônica do início do século passado, escrita por João Paulo Emílio Coelho Barreto, mais conhecido pelo pseudônimo de João do Rio. Ruy Barbosa havia sido derrotado para presidente da república e se entabulava um confronto nos jornais entre aqueles que diziam que os brasileiros cultuavam a incompetência e outros, como Quintino Bacaiúva, que afirmavam que para ser presidente não era necessário ser um assombro de inteligência ou erudição. Nesse contexto o cronista escreveu “O Homem de Cabeça de Papelão”.

A história é sobre um cidadão chamado Antenor que morava no país do Sol. Antenor era um cidadão sem importância e desprezado pelos demais. Tinha um grande defeito: só dizia a verdade. Além desse defeito grave, pensava por conta própria. A mãe de Antenor apenas não o mandou embora de casa porque sabia que o filho era essencialmente bom. Não tinha culpa de seus defeitos. Essas duas características fizeram com que ao longo do tempo passasse a ser visto com um verdadeiro louco.

De nada adiantavam os conselhos familiares para que Antenor se emendasse, que seguisse uma carreira pública. Poderia ser político como o tio. Recusava-se, pois queria trabalhar. Nem mesmo no trabalho teve sucesso. Era sempre despedido após uns poucos meses. A razão é que fazia mais do que os outros e expunha ideias próprias. Antenor não se importava com nada disso. Apesar das dificuldades seguia adiante com o seu jeito de ser.

Certo dia, no entanto, apaixonou-se pela filha da lavadeira de sua mãe, chamada Maria Antônia. Antenor achava perfeitamente justo casar com a moça, mas para a família foi a prova final de sua maluquice. Maria Antônia, no entanto, exigiu que o personagem tomasse juízo, como condição para casar-se com ele. Antenor saiu pela rua, repleto de amor, e com o objetivo de resolver o problema. Subitamente deparou-se com uma placa no centro da cidade que dizia: “relojoaria e outros instrumentos delicados de precisão”. Entrou na loja com o objetivo de consertar a própria cabeça.

O relojoeiro exigiu que deixasse a cabeça na loja, pois para consertá-la precisaria desmontá-la e observá-la durante trinta dias. Para sanar o problema da falta de cabeça, o relojoeiro deu-lhe uma cabeça nova, de papelão. Com a cabeça de papelão a vida de Antenor mudou. Dois meses depois, tinha vários amigos e jogava pôquer com o Ministro da Agricultura. Ganhava uma fortuna vendendo comida estragada para o Estado.

Explorava, bajulava e falsificava. Passou a ser admirado por todos. Foi eleito deputado, depois senador. Era íntimo de ministros e do próprio presidente. Não é preciso dizer que Maria, o antigo amor, foi substituída por diversas outras Marias, de melhor posição social.

Anos depois, lembrou-se da antiga cabeça e decidiu buscá-la. Ao perguntar ao relojoeiro, qual era o problema foi informado que nada havia de errado. Tratava-se de uma obra perfeita de precisão. Cabeça de gênio. Apesar disso Antenor seguiu usando a cabeça de papelão e, com isso, apesar de não ter uma cabeça admirável tornou-se um dos políticos mais influentes do seu tempo.

Assim termina a crônica escrita por João do Rio, mas certamente a história teve continuação. Antenor casou-se com uma moça que também usava cabeça de papelão e tiveram uma prole numerosa. Atualmente vários de seus descendentes exercem cargos eletivos em diversas cidades do país.

Marcelo Harger

Opinião: Passarinhando em liberdade

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Passarinhando em liberdade”

Liberdade é algo que não se define. Vive-se. Senti-la é fácil. Explicá-la é difícil. Há quem prefira dizer que é um sentimento. Para esses, seria sentir o que se deseja independentemente da opinião dos outros. Há quem foque a liberdade de pensamento, e afirme que ser livre é pensar o que se quer. Essa é a linha Gandhi, que ensinava que “a prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência”.

Outros salientam a liberdade de expressão, e afirmam que ser livre significa o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir. Voltaire celebrizou essa espécie de pensamento ao declarar: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”.

Liberdade é tudo isso e mais um pouco. É impossível traduzir em palavras aquilo que somente se pode sentir. É como se fosse o oxigênio da alma, e esse é o grande problema.

Uma alma oxigenada “faz poeira”. Aqueles que têm medo da bagunça logo optam pela “arrumação”. Atacam com metralhadoras pessoas que em sua defesa apenas tem a palavra.

É que liberdade é uma daquelas coisas que são atraentes enquanto promessas, mas se tornam enlouquecedoras quando efetivamente se cumprem. Ser livre ofende, e há pessoas agredidas ao redor do mundo pela injúria de serem excessivamente livres. Outras são presas pela mesma razão.

Bater e prender não adianta. A opressão é como água em estrada de terra. Reduz a poeira, mas não resolve o problema. Basta um dia de sol para que ela ressurja com ainda maior vigor. Liberdade se combate com liberdade.

Aqueles que pensam somente são subjugados por argumentos, jamais por impedimentos. Tornam-se mais livres quando cercados por muralhas, e valorizam ainda mais aquilo que perderam. É por isso que os maiores escritos sobre a liberdade foram feitos no cárcere. O preso de consciência passa a ter unicamente o objetivo de perpetuar a sua liberdade de pensamento. É certo que a tirania nunca dura para sempre. Parafraseando o poeta Mário Quintana, todos aqueles que ficam por aí atravancando o caminho passarão. Os demais passarinham.

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Marcelo Harger

Opinião: Tédio ou Sofrimento

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Tédio ou Sofrimento”

• atualizado em 10/05/2019 às 11:15

Assisti recentemente a um filme no qual um menino começava a estudar filosofia e soltava frases de efeito na frente dos pais. Ao ser enviado para fazer os seus deveres escolares, o menino reclama: isso é um tédio! Em seguida cita uma frase filosófica dizendo que: na vida temos que escolher entre o tédio e o sofrimento.

O pai de chinelo na mão retruca prontamente: você quer o sofrimento? O menino obviamente opta pelo tédio e vai fazer os deveres.

Ao ver esse episódio, lembrei-me imediatamente de um ensinamento que desde cedo me foi ministrado pelo meu pai. Há coisas que tem que ser feitas independentemente de gostarmos ou não. Fazer o que se gosta muitas vezes significa apreender a gostar do que se faz.

Tarefas difíceis podem ser feitas com prazer ou sem prazer. Terão que ser feitas do mesmo jeito. Não há opção. Reclamar apenas serve para atrapalhar, pois a reclamação reforça a resistência interna que já temos. Se algo é chato ou difícil é melhor executar logo. Fazer por primeiro serve para acabar logo com o sofrimento. O espírito deve sempre ser o de transformar o limão em uma limonada.

Ninguém consegue passar uma vida inteira sem quaisquer problemas. Não há como remediar esse fato. É um dado da vida. É ela que não tem remédio. Reserva momentos bons e ruins para cada um de nós. Algumas vezes gostaríamos de encontrar um propósito para os problemas. Gostaríamos de ter a certeza de que alguém está apenas a nos ensinar uma lição e que tudo ficará bem no futuro. Isso, contudo, é impossível de se saber. É certo que coisas ruins acontecem às pessoas boas. Usar o que nos acontece como motivação para a evolução pessoal, no entanto, depende de cada um.

É certo que diante de cada dificuldade o pior obstáculo é o próprio ser humano. Cada homem é o pior inimigo de si próprio. Ter essa percepção abre novas possibilidades para enfrentar os problemas. Encarar é o único modo de vencer a “corrida”. Fugir somente serve para que fiquemos para trás e há quem fique tão atrás que acha que está liderando.

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Marcelo Harger

Opinião: Vivendo a milhão

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Vivendo a milhão”

Bom é viver a mil. A mil é pouco? Então a milhão. Nos dias de hoje a palavra de ordem é adrenalina, agitação. Sentir emoção não basta. Tem que ser forte, imensa, arrebatadora. Senão não vale. E para manter o padrão tem que aumentar cada dia. Viver um amor não é suficiente. Tem que ser um grande amor e os gestos de amor enormes. Uma flor não serve. Começa com um buquê e vai crescendo até que seja um caminhão.

Sobra exagero. Falta simplicidade. Sobeja exigência. Escasseia a sensibilidade. Agir é sempre com impulsividade, jamais com moderação. Sobra ímpeto, falta prudência. Carpe diem. Aproveite o dia é o lema, mas há muito carpe para pouco diem.

O mote é abaixo a rotina. E ela realmente veio abaixo, mas deu a volta por cima. Quando não há rotina a falta dela torna-se rotineira e ela ressurge vitoriosa.

Traz consigo para comemorar a vitória alguns amigos: cansaço, medo, ansiedade e depressão.

Cansaço por haver esforço demais. Falta energia para suportar nas costas o peso de tanta emoção.

Medo de não conseguir manter o padrão. De não atender as expectativas. De nem mesmo saber o que fazer para impressionar depois de encher de flores um caminhão.

Ansiedade porque o dia está correndo e é preciso aproveitá-lo. Já passou um minuto e ainda não se fez nada diferente. A rotina esta vindo, a rotina está vindo! Rápido, rápido é preciso sair de casa. E essa correria torna-se o dia a dia.

Depressão. Tristeza profunda, porque a vida parece vazia, sem significado. Sem futuro e sem passado. Sem marcas do que se fez de bom. Sem perspectivas pra o futuro.

É falta de lirismo, de saborear pequenos momentos. Não é possível ver o sol se por com pressa. Há coisas que não tem preço. Parece propaganda de cartão de crédito, mas é verdade. Aquele papo gostoso em família. A risada de uma criança. Caminhar na chuva. O beijo há muito esperado. Os momentos deitados em uma rede. Os filmes vistos nos dias de chuva. O som simples e singelo de um violão na beira da praia. Passear de mãos dadas. A poesia mal escrita, mas mesmo assim tão linda. Nada disso é tão imenso, mas é profundo. Instantes que duram a eternidade.

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