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Marcelo Harger

Opinião: Saidinha

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Saidinha”

Vou tentar escrever sem paixão sobre um tema que desperta as mais profundas delas. Trata-se da negativa de permissão para que o ex-presidente Lula comparecesse ao velório do irmão. Lamento pelo fato de o ex-presidente não poder dar pessoalmente o seu último adeus ao ente querido. Na verdade lamento pelo próprio fato de ver um ex-presidente preso.

Lamento também que o Supremo Tribunal Federal admita a prisão em segunda instância. Em minha opinião técnica ninguém pode ser considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória. É a letra da Constituição. Prender antes do trânsito em julgado é prender alguém que a Constituição considera “não culpado”, ou seja, inocente. Trata-se, no entanto, de decisão que vem sendo aplicada a todos que se encontram na mesma situação. Lula, portanto, não poderia ser beneficiado em detrimento dos demais.

Vou abstrair a questão da correção da condenação. Faço isso porque aquele que diz o que a lei diz no caso concreto é o Poder Judiciário, e se o Judiciário diz que Lula deve estar preso no momento, preso ele deve estar.

Estando preso, obviamente, os seus direitos “diminuem”, pois está preso ora bolas. Isso significa dizer que certamente tem restrições quanto a receber visitas e, mais ainda, quanto a sair do presídio.

A legislação penal autoriza que se dê permissão ao preso, mediante escolta, para sair em caso de falecimento de um irmão. Trata-se de um ato excepcional. Não é, como pode parecer a primeira vista, algo que aconteça todos os dias.

Negar autorização para a saída ou não obtê-la em tempo hábil é corriqueiro. Não se trata de uma simples “saidinha”. A autorização demanda um grande aparato para o transporte, especialmente em um caso como o de Lula, que é um político que desperta paixões. Não é um preso comum. O aparato de segurança exigido é muito maior, seja para evitar uma eventual fuga, seja para protegê-lo de eventuais inimigos. Não identifico ilegalidade na negativa de saída do presídio. Trata-se de decisão previsível.

A discussão que subsiste é se efetivamente Lula deveria estar preso, e sobre esse aspecto, o Poder Judiciário ainda não se manifestou de forma definitiva. Trata-se de uma incongruência gerada pelo entendimento equivocado de nossa Corte Suprema acerca da prisão em segunda instância.

Marcelo Harger

Opinião: Eleições

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Eleições”

No próximo ano teremos eleições municipais e todos os problemas serão resolvidos. Não haverá mais desemprego. Os problemas de segurança serão solucionados. Cada bairro terá um hospital. A água e o transporte coletivo serão praticamente gratuitos e o trânsito voltará a fluir melhor. São tantas as pérolas que há quem diga que nossos políticos não abrem as bocas, abrem as ostras durante a eleição.

A situação faz lembrar uma crônica do início do século passado, escrita por João Paulo Emílio Coelho Barreto, mais conhecido pelo pseudônimo de João do Rio. Ruy Barbosa havia sido derrotado para presidente da república e se entabulava um confronto nos jornais entre aqueles que diziam que os brasileiros cultuavam a incompetência e outros, como Quintino Bacaiúva, que afirmavam que para ser presidente não era necessário ser um assombro de inteligência ou erudição. Nesse contexto o cronista escreveu “O Homem de Cabeça de Papelão”.

A história é sobre um cidadão chamado Antenor que morava no país do Sol. Antenor era um cidadão sem importância e desprezado pelos demais. Tinha um grande defeito: só dizia a verdade. Além desse defeito grave, pensava por conta própria. A mãe de Antenor apenas não o mandou embora de casa porque sabia que o filho era essencialmente bom. Não tinha culpa de seus defeitos. Essas duas características fizeram com que ao longo do tempo passasse a ser visto com um verdadeiro louco.

De nada adiantavam os conselhos familiares para que Antenor se emendasse, que seguisse uma carreira pública. Poderia ser político como o tio. Recusava-se, pois queria trabalhar. Nem mesmo no trabalho teve sucesso. Era sempre despedido após uns poucos meses. A razão é que fazia mais do que os outros e expunha ideias próprias. Antenor não se importava com nada disso. Apesar das dificuldades seguia adiante com o seu jeito de ser.

Certo dia, no entanto, apaixonou-se pela filha da lavadeira de sua mãe, chamada Maria Antônia. Antenor achava perfeitamente justo casar com a moça, mas para a família foi a prova final de sua maluquice. Maria Antônia, no entanto, exigiu que o personagem tomasse juízo, como condição para casar-se com ele. Antenor saiu pela rua, repleto de amor, e com o objetivo de resolver o problema. Subitamente deparou-se com uma placa no centro da cidade que dizia: “relojoaria e outros instrumentos delicados de precisão”. Entrou na loja com o objetivo de consertar a própria cabeça.

O relojoeiro exigiu que deixasse a cabeça na loja, pois para consertá-la precisaria desmontá-la e observá-la durante trinta dias. Para sanar o problema da falta de cabeça, o relojoeiro deu-lhe uma cabeça nova, de papelão. Com a cabeça de papelão a vida de Antenor mudou. Dois meses depois, tinha vários amigos e jogava pôquer com o Ministro da Agricultura. Ganhava uma fortuna vendendo comida estragada para o Estado.

Explorava, bajulava e falsificava. Passou a ser admirado por todos. Foi eleito deputado, depois senador. Era íntimo de ministros e do próprio presidente. Não é preciso dizer que Maria, o antigo amor, foi substituída por diversas outras Marias, de melhor posição social.

Anos depois, lembrou-se da antiga cabeça e decidiu buscá-la. Ao perguntar ao relojoeiro, qual era o problema foi informado que nada havia de errado. Tratava-se de uma obra perfeita de precisão. Cabeça de gênio. Apesar disso Antenor seguiu usando a cabeça de papelão e, com isso, apesar de não ter uma cabeça admirável tornou-se um dos políticos mais influentes do seu tempo.

Assim termina a crônica escrita por João do Rio, mas certamente a história teve continuação. Antenor casou-se com uma moça que também usava cabeça de papelão e tiveram uma prole numerosa. Atualmente vários de seus descendentes exercem cargos eletivos em diversas cidades do país.

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Marcelo Harger

Opinião: Lambendo as crias

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Lambendo as crias”

Ela entrou com um ar seguro no deque da piscina. Julgava-se invencível. Os olhos estavam ligeiramente fechados para se proteger do sol.
Trajava um biquíni rosa. Os cabelos estavam presos em um “rabo de cavalo”, que deixava cair uma mecha sobre o rosto.

Olhou para a água, correu brevemente, e sem hesitar pulou na piscina. Foi um “Deus nos acuda”. Atirei-me para salvar a pequenina de apenas dois anos de idade.

Erguida prontamente nos braços salvadores do pai, fez uma cara de que não sabia se ria ou chorava pelo susto. Procurei acalmá-la dizendo: que mergulhão!

Ela riu gostoso, como só os bebês sabem fazer, e apontando o minúsculo dedinho indicador para mim deu-me uma advertência. Disse-me ai, ai, ai, ai, ai com o dedinho em riste. Foi ela quem aprontou, mas fui eu quem levou a bronca.

Pai perdoa. Não tem problema. Vale tudo pela saúde dos pequenos. O susto, mais um dentre muitos, serve de lembrete de tudo o que a pequena Martina precisará aprender até tornar-se mulher.

Felizmente dessa vez estava perto, mas foi inevitável pensar no futuro de minha pequena. Quantos tombos, reais e metafóricos, ela levará durante sua vida? Quantas decepções, amores não correspondidos e outras dificuldades ela encontrará? Quantas vezes poderei “salvá-la”?
Espero que muitas. Os filhos crescem e devagarzinho vão deixando de lado a ajuda dos pais. Pedro, com oito anos, não quer mais que o leve até dentro da sala. Devo deixá-lo no portão. Diz que já é grande o suficiente para entrar sozinho. Pai levando até a sala é um “mico”. Contento-me em olhá-lo a distância, com orgulho, pela pontinha de independência por ele conquistada. Olho enquanto agarro Martina com todas as forças e a levo até a sala. Ela nem sabe o que é mico, mas já me manda embora na porta da sala.

Dá um tchau, abanando com a mão pequenina e manda um beijo. Eu me derreto todo pensando durante quanto tempo terei esse privilégio. Até quando ela terá esse cheiro gostoso de neném? Por quanto tempo terei forças para  levá-la em meus braços? São perguntas que batem fundo dentro de mim. Espero que a resposta demore. Enquanto ela não vem, sigo aproveitando e torcendo para que demore muito, pois não há nada melhor do que “lamber as crias”.

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Marcelo Harger

Opinião: Jurassic Park

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Jurassic Park”

Levei as crianças para passear na pacata cidade de Pomerode, próximaa Joinville. Passeio ótimo para um sábado ensolarado. Visitamos o jardim zoológico aonde vimos leões, tigres, zebras, ursos, hipopótamos e outros animais.

Martina arregalava os olhos para tudo e Pedro queria ver os pinguins. Saindo do zoológico visitamos o maior ovo e a maior árvore de páscoa na “Osterfest”, festa municipal comemorativa da páscoa.

O ponto alto, no entanto, foi o parque dos dinossauros. Ponto alto, por várias razões. Em primeiro lugar porque as crianças adoraram. Em segundo lugar porque havia brinquedos daqueles nos quais as crianças sobem, e ficam andando entre obstáculos nas alturas. Pedro foi logo subindo.

A Martina, de dois anos, não ficou atrás. Quando percebi já havia subido. Como todos sabem, não basta ser pai, tem que participar. Lá fui eu subir no tal brinquedo para cuidar da pequena, que dava gritinhos de felicidade.

Eu segurava os “ai meu deus” e “minha nossa senhora” tentando acompanhar a pequenina. Embora a placa dissesse que os adultos podiam se divertir também, o brinquedo não era feito para gente grande. Era preciso andar curvado ou engatinhar. Tive dor nas costas, no ciático e até “dor de cabelo”. Há quem diga que cabelo não dói. Para mim não doía até andar naquele brinquedo. Quem nunca sentiu dor de cabelo é porque nunca se sentiu dolorido de verdade.

Brinquei com a pequena durante os trinta minutos mais longos de minha vida. Quando minha esposa fez o sinal de “vamos embora” surgiu o último problema: como descer daquela geringonça. O melhor caminho foi um escorregador de tubo verde e cheio de voltinhas. Cheguei ao chão desconjuntado, mas vivo. Isso é o que importa. Na saída do parque, ao ver as estátuas de dinossauros lembrei-me do filme Jurassic Park. Os atores faziam cara de corajosos ao enfrentar os bichos. Queria vê-los em Pomerode. Tenho certeza de que a cara seria de desespero.

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