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Marcelo Harger

Opinião: O sistema

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “O sistema”

Nada é superior ao sistema. O sistema é imbatível. Contra ele não adianta lutar. Ele é imune a críticas. Isento de falhas. Sabe tudo. Pode tudo. Resiste a tudo. Por mais que se lute ele sempre vence.

Não estou aqui fazendo uma crítica àqueles que querem mudar a sociedade. O sistema social pode ser mudado. O sistema que é invencível é o sistema de computador. Por alguma razão as pessoas confiam nele cegamente. Consideram as informações ali colocadas como palavras divinas. Acreditam naquelas informações como se tivessem sido ditadas por Deus.

O cidadão telefona para solicitar um simples sanduíche. Por alguma razão quem atende é um serviço de 0800 em São Paulo. Logo informam o seu número de telefone e o endereço. Tudo automático e eficiente. Cadastrado no sistema. Sabem até o seu nome. O problema é que os telefones mudam de proprietários e algumas vezes de endereço. Tentar explicar uma situação dessas aos adeptos do sistema é um verdadeiro calvário. O sujeito ao dizer que é homem e obviamente não se chama Patrícia é visto com desconfiança. Quando diz que o endereço é outro, a coisa fica ainda pior. Para finalizar, normalmente o novo endereço não confere com o bairro cadastrado no sistema. Essa é a heresia suprema. Não adianta dizer que mora no Centro. O sistema diz que é América e pronto. Se resolvemos concordar e dizer então coloca América mesmo, logo vem questionamento. O atendente afirma que precisa saber com exatidão qual é o bairro correto para nos atender e pede o CEP da rua. Tentar explicar que quer o lanche logo e não pelo correio é inútil. Tampouco adianta esclarecer que a cidade só tem uma rua com aquele nome, que você consegue ver o luminoso da lanchonete da sua casa, e que não tem como um entregador errar porque você o vê passar todos os dias por ali. O sistema exige. Nessa hora já passou a fome, mas ficamos com um desejo interno de sermos canibais para devorar vivo o sujeito que bolou o maldito sistema. Aqui, contudo, o problema é pequeno. Estamos no conforto do lar.

Há vezes, no entanto, em que não podemos abrir mão do sistema. Lembro-me de certa vez ter ficado em situação parecida no meio da estrada. Chovia cântaros e o carro estava quebrado na serra de Curitiba. O celular não pegava. Andando debaixo da chuva descobri um lugarzinho onde o sinal oscilava. E dá-lhe tentar resolver o problema de conseguir um guincho com a seguradora. Eu via uma placa indicando Tijucas do Sul a cinco quilômetros. A operadora perguntava em que quilômetro da estrada eu estava. Via na minha frente o marcador da quilometragem e a placa indicando Tijucas. Eu respondia a quilometragem e qual era a cidade e a operadora dizia que a cidade mais perto era Curitiba. O sistema dizia isso. A ligação caía. Eu tentava argumentar com a operadora seguinte, pois nunca era a mesma que atendia. Aí esquecia o que via na minha frente e logo dizia que era perto de Curitiba, mas o sistema já tinha sido alimentado. Agora já possuía a informação de que o usuário maluco dizia estar em Tijucas, mas na verdade estava em Curitiba e a operadora ficava nessa sandice. Guincho que é bom, nada. Felizmente fui salvo pela polícia rodoviária que recomendou um “guincheiro” das imediações.

Foi aí que aprendi a nunca mais lutar contra o sistema. Agora nem tento argumentar. Reconheço que estou na China e não no Brasil se for preciso e rezo, pois como o sistema é Deus ele certamente me ouvirá e atenderá adequadamente.

Marcelo Harger

Opinião: Passarinhando em liberdade

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Passarinhando em liberdade”

Liberdade é algo que não se define. Vive-se. Senti-la é fácil. Explicá-la é difícil. Há quem prefira dizer que é um sentimento. Para esses, seria sentir o que se deseja independentemente da opinião dos outros. Há quem foque a liberdade de pensamento, e afirme que ser livre é pensar o que se quer. Essa é a linha Gandhi, que ensinava que “a prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência”.

Outros salientam a liberdade de expressão, e afirmam que ser livre significa o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir. Voltaire celebrizou essa espécie de pensamento ao declarar: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”.

Liberdade é tudo isso e mais um pouco. É impossível traduzir em palavras aquilo que somente se pode sentir. É como se fosse o oxigênio da alma, e esse é o grande problema.

Uma alma oxigenada “faz poeira”. Aqueles que têm medo da bagunça logo optam pela “arrumação”. Atacam com metralhadoras pessoas que em sua defesa apenas tem a palavra.

É que liberdade é uma daquelas coisas que são atraentes enquanto promessas, mas se tornam enlouquecedoras quando efetivamente se cumprem. Ser livre ofende, e há pessoas agredidas ao redor do mundo pela injúria de serem excessivamente livres. Outras são presas pela mesma razão.

Bater e prender não adianta. A opressão é como água em estrada de terra. Reduz a poeira, mas não resolve o problema. Basta um dia de sol para que ela ressurja com ainda maior vigor. Liberdade se combate com liberdade.

Aqueles que pensam somente são subjugados por argumentos, jamais por impedimentos. Tornam-se mais livres quando cercados por muralhas, e valorizam ainda mais aquilo que perderam. É por isso que os maiores escritos sobre a liberdade foram feitos no cárcere. O preso de consciência passa a ter unicamente o objetivo de perpetuar a sua liberdade de pensamento. É certo que a tirania nunca dura para sempre. Parafraseando o poeta Mário Quintana, todos aqueles que ficam por aí atravancando o caminho passarão. Os demais passarinham.

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Marcelo Harger

Opinião: Tédio ou Sofrimento

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Tédio ou Sofrimento”

• atualizado em 10/05/2019 às 11:15

Assisti recentemente a um filme no qual um menino começava a estudar filosofia e soltava frases de efeito na frente dos pais. Ao ser enviado para fazer os seus deveres escolares, o menino reclama: isso é um tédio! Em seguida cita uma frase filosófica dizendo que: na vida temos que escolher entre o tédio e o sofrimento.

O pai de chinelo na mão retruca prontamente: você quer o sofrimento? O menino obviamente opta pelo tédio e vai fazer os deveres.

Ao ver esse episódio, lembrei-me imediatamente de um ensinamento que desde cedo me foi ministrado pelo meu pai. Há coisas que tem que ser feitas independentemente de gostarmos ou não. Fazer o que se gosta muitas vezes significa apreender a gostar do que se faz.

Tarefas difíceis podem ser feitas com prazer ou sem prazer. Terão que ser feitas do mesmo jeito. Não há opção. Reclamar apenas serve para atrapalhar, pois a reclamação reforça a resistência interna que já temos. Se algo é chato ou difícil é melhor executar logo. Fazer por primeiro serve para acabar logo com o sofrimento. O espírito deve sempre ser o de transformar o limão em uma limonada.

Ninguém consegue passar uma vida inteira sem quaisquer problemas. Não há como remediar esse fato. É um dado da vida. É ela que não tem remédio. Reserva momentos bons e ruins para cada um de nós. Algumas vezes gostaríamos de encontrar um propósito para os problemas. Gostaríamos de ter a certeza de que alguém está apenas a nos ensinar uma lição e que tudo ficará bem no futuro. Isso, contudo, é impossível de se saber. É certo que coisas ruins acontecem às pessoas boas. Usar o que nos acontece como motivação para a evolução pessoal, no entanto, depende de cada um.

É certo que diante de cada dificuldade o pior obstáculo é o próprio ser humano. Cada homem é o pior inimigo de si próprio. Ter essa percepção abre novas possibilidades para enfrentar os problemas. Encarar é o único modo de vencer a “corrida”. Fugir somente serve para que fiquemos para trás e há quem fique tão atrás que acha que está liderando.

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Marcelo Harger

Opinião: Vivendo a milhão

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Vivendo a milhão”

Bom é viver a mil. A mil é pouco? Então a milhão. Nos dias de hoje a palavra de ordem é adrenalina, agitação. Sentir emoção não basta. Tem que ser forte, imensa, arrebatadora. Senão não vale. E para manter o padrão tem que aumentar cada dia. Viver um amor não é suficiente. Tem que ser um grande amor e os gestos de amor enormes. Uma flor não serve. Começa com um buquê e vai crescendo até que seja um caminhão.

Sobra exagero. Falta simplicidade. Sobeja exigência. Escasseia a sensibilidade. Agir é sempre com impulsividade, jamais com moderação. Sobra ímpeto, falta prudência. Carpe diem. Aproveite o dia é o lema, mas há muito carpe para pouco diem.

O mote é abaixo a rotina. E ela realmente veio abaixo, mas deu a volta por cima. Quando não há rotina a falta dela torna-se rotineira e ela ressurge vitoriosa.

Traz consigo para comemorar a vitória alguns amigos: cansaço, medo, ansiedade e depressão.

Cansaço por haver esforço demais. Falta energia para suportar nas costas o peso de tanta emoção.

Medo de não conseguir manter o padrão. De não atender as expectativas. De nem mesmo saber o que fazer para impressionar depois de encher de flores um caminhão.

Ansiedade porque o dia está correndo e é preciso aproveitá-lo. Já passou um minuto e ainda não se fez nada diferente. A rotina esta vindo, a rotina está vindo! Rápido, rápido é preciso sair de casa. E essa correria torna-se o dia a dia.

Depressão. Tristeza profunda, porque a vida parece vazia, sem significado. Sem futuro e sem passado. Sem marcas do que se fez de bom. Sem perspectivas pra o futuro.

É falta de lirismo, de saborear pequenos momentos. Não é possível ver o sol se por com pressa. Há coisas que não tem preço. Parece propaganda de cartão de crédito, mas é verdade. Aquele papo gostoso em família. A risada de uma criança. Caminhar na chuva. O beijo há muito esperado. Os momentos deitados em uma rede. Os filmes vistos nos dias de chuva. O som simples e singelo de um violão na beira da praia. Passear de mãos dadas. A poesia mal escrita, mas mesmo assim tão linda. Nada disso é tão imenso, mas é profundo. Instantes que duram a eternidade.

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