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Marcelo Harger

Opinião: Filho

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Filho”.

“Filhos? Melhor não tê-los. Mas se não os temos como sabê-lo?” Essas são as estrofes iniciais de um poema de Vinícius de Morais chamado Poema enjoadinho.

Ao contrário do que se depreende da estrofe inicial não se trata de dizer que não é bom ter filhos. O poetinha faz uma comparação entre aqueles que são pais e os que não o são.

Crianças são problema. Dormem quando queremos que fiquem acordadas e acordam quando queremos que durmam. Fazem coco e pipi na cama. Largam brinquedos por onde passam. Quebram coisas. Derrubam copos e pratos durante o jantar. Choram. Exigem cuidados em tempo integral. Desaparecem na menor desatenção. Enfiam o dedo na tomada, engolem botões, bebem detergente, queimam a mão, debruçam-se na janela, ficam doentes e muito mais. Qualquer um que ler essa lista fica cansado, mas se for pai se identifica. É um verdadeiro horror e os “não-pais” assustam-se com isso.

Não imaginam, no entanto, a proximidade que todas essas coisas trazem entre dois seres. Crianças são extremamente dependentes e essa dependência encanta, pois somente conseguem sobreviver ao mundo com o apoio dos pais. Cometem diabruras, mas não há maldade. Há falta de compreensão do mundo que as cerca. Como é bom ensiná-las o modo correto de proceder. Ouvir as risadas gostosas. Ver o olhar de admiração pela mãe mais bonita e o pai mais poderoso do mundo. A emoção das primeiras palavras e dos primeiros passos. As frases engraçadas que dizem. As coisas profundas que ensinam. A capacidade extrema de perdoar.

E o olhar de encantamento pelas descobertas mais simples? Que dizer então do abraço apertado e do beijo delicado que nos dão? Como esquecer das vezes em que com eles dormimos abraçados? E do cheiro gostoso que têm? E dos cabelos tão macios?

Os benefícios superam em muito as dificuldades. Filhos melhor é tê-los. E quando os temos como esquecê-los?

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Marcelo Harger

Opinião: O sistema

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “O sistema”

Nada é superior ao sistema. O sistema é imbatível. Contra ele não adianta lutar. Ele é imune a críticas. Isento de falhas. Sabe tudo. Pode tudo. Resiste a tudo. Por mais que se lute ele sempre vence.

Não estou aqui fazendo uma crítica àqueles que querem mudar a sociedade. O sistema social pode ser mudado. O sistema que é invencível é o sistema de computador. Por alguma razão as pessoas confiam nele cegamente. Consideram as informações ali colocadas como palavras divinas. Acreditam naquelas informações como se tivessem sido ditadas por Deus.

O cidadão telefona para solicitar um simples sanduíche. Por alguma razão quem atende é um serviço de 0800 em São Paulo. Logo informam o seu número de telefone e o endereço. Tudo automático e eficiente. Cadastrado no sistema. Sabem até o seu nome. O problema é que os telefones mudam de proprietários e algumas vezes de endereço. Tentar explicar uma situação dessas aos adeptos do sistema é um verdadeiro calvário. O sujeito ao dizer que é homem e obviamente não se chama Patrícia é visto com desconfiança. Quando diz que o endereço é outro, a coisa fica ainda pior. Para finalizar, normalmente o novo endereço não confere com o bairro cadastrado no sistema. Essa é a heresia suprema. Não adianta dizer que mora no Centro. O sistema diz que é América e pronto. Se resolvemos concordar e dizer então coloca América mesmo, logo vem questionamento. O atendente afirma que precisa saber com exatidão qual é o bairro correto para nos atender e pede o CEP da rua. Tentar explicar que quer o lanche logo e não pelo correio é inútil. Tampouco adianta esclarecer que a cidade só tem uma rua com aquele nome, que você consegue ver o luminoso da lanchonete da sua casa, e que não tem como um entregador errar porque você o vê passar todos os dias por ali. O sistema exige. Nessa hora já passou a fome, mas ficamos com um desejo interno de sermos canibais para devorar vivo o sujeito que bolou o maldito sistema. Aqui, contudo, o problema é pequeno. Estamos no conforto do lar.

Há vezes, no entanto, em que não podemos abrir mão do sistema. Lembro-me de certa vez ter ficado em situação parecida no meio da estrada. Chovia cântaros e o carro estava quebrado na serra de Curitiba. O celular não pegava. Andando debaixo da chuva descobri um lugarzinho onde o sinal oscilava. E dá-lhe tentar resolver o problema de conseguir um guincho com a seguradora. Eu via uma placa indicando Tijucas do Sul a cinco quilômetros. A operadora perguntava em que quilômetro da estrada eu estava. Via na minha frente o marcador da quilometragem e a placa indicando Tijucas. Eu respondia a quilometragem e qual era a cidade e a operadora dizia que a cidade mais perto era Curitiba. O sistema dizia isso. A ligação caía. Eu tentava argumentar com a operadora seguinte, pois nunca era a mesma que atendia. Aí esquecia o que via na minha frente e logo dizia que era perto de Curitiba, mas o sistema já tinha sido alimentado. Agora já possuía a informação de que o usuário maluco dizia estar em Tijucas, mas na verdade estava em Curitiba e a operadora ficava nessa sandice. Guincho que é bom, nada. Felizmente fui salvo pela polícia rodoviária que recomendou um “guincheiro” das imediações.

Foi aí que aprendi a nunca mais lutar contra o sistema. Agora nem tento argumentar. Reconheço que estou na China e não no Brasil se for preciso e rezo, pois como o sistema é Deus ele certamente me ouvirá e atenderá adequadamente.

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Marcelo Harger

Opinião: Esperando o amor chegar

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Esperando o amor chegar”

O amor é algo que surge. Não se explica. Todos buscam. Alguns encontram. Outros não. Algumas vezes surge rápido. Outras demoram. Pode ser na forma de uma pessoa. Talvez de um filho ou namorado. Outras vezes um amigo ou ente querido. Outros se afeiçoam perdidamente a um animal ou objeto. São formas diferentes de amor.

Uma coisa é certa. O amor brota inesperadamente. Não sabemos por que amamos alguém. Sabemos que amamos. Isso basta. Tenta-se justificar racionalmente. Uns dizem que é por causa da beleza. Outros pela inteligência ou ainda por um jeito de olhar ou sorrir. Nenhuma dessas justificativas funciona. Certamente existem pessoas mais bonitas, inteligentes e alegres que aquelas que amamos, mas não é com essas pessoas que o laço se forma.

Normalmente é com alguém insuspeito. Tentar explicar é besteira. Não se explica o que não é racional. Já se disse que o coração tem razões que a própria razão desconhece. Essa é a verdade. É sentimento. Não se explica. Vivencia-se.

Não adianta forçar o amor. Por mais que alguém se esforce ele não acontece. Não depende de esforço ou desejo. Precisa de serenidade e preparação que somente a vida traz. Quanto mais se busca mais distante ele fica. Quando se deixa de procurar ele surge. Algumas vezes muito mais próximo do que poderíamos imaginar.

É que não adianta procurar com a visão. O essencial é invisível aos olhos. Só se encontra se olharmos com o coração. Quem disse isso foi o pequeno príncipe. É lugar comum, mas é verdade. Foi ele também quem disse que quando alguém que amamos chega as quatro desde as três somos felizes. Pensamentos simples, mas profundos para pensar enquanto esperamos.

Enquanto aguardamos somente podemos preparar nossos corações, porque quando estivermos prontos para o amor certamente a pessoa amada aparecerá.

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Marcelo Harger

Opinião: Juventude

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Juventude”.

A idade está na cabeça das pessoas. O importante é ser jovem de espírito. Alguém que diz essas coisas é porque já não é tão novo assim.
Para não ficar feio, vamos dizer que é jovem “há mais tempo que os demais”. Assim fica melhor.

O fato é que a juventude tem todos os seus encantos. Ninguém pode negar. A emoção de se conhecer tudo pela primeira vez é indescritível. Desde os primeiros passos quando crianças, passando pela primeira vez em que andamos na escada rolante ou no elevador. E a primeira vez em que vemos o mar? É só encanto. Certamente nunca havíamos visto coisa tão bela. O primeiro beijo e a primeira namorada. Nada mais emocionante que o prazer dessa descoberta. As grandes paixões e sofrimentos por amor. Juramos que jamais vamos amar novamente da mesma maneira e na semana seguinte o coração já pulsa com toda força. Juventude é assim, coisa bela.

Dizer que a velhice é a melhor idade pode ser politicamente correto, mas não é verdade. Bom mesmo é a vida despreocupada de nossa
mocidade, quando temos todas as certezas do mundo. Certa vez perguntaram ao homem mais sábio do mundo com que idade um homem terá todas as respostas para os problemas que afligem a humanidade. Ele prontamente respondeu que é na juventude. Os jovens tudo sabem.

Antes que me acusem de saudosista vou logo concordando. Tenho saudades mesmo, mas não de voltar ao passado. É daquela que temos pelas experiências que são únicas. Jamais poderei repetir a emoção de ler Monteiro Lobato ou Vinícius de Moraes pela primeira vez. E isso traz saudades. Essas experiências tiveram o seu momento e o passar do tempo vai reduzindo as surpresas diárias que temos. Com a idade passamos a nos surpreender pouco, e isso ocorre porque mantemos aqueles hábitos antigos, que são fruto das primeiras emoções que experimentamos.

Certamente, para mim não é mais possível aprender a caminhar ou beijar pela primeira vez. Tampouco será possível ter novamente a emoção
do primeiro contato com o mar ou com um livro do Vininha. Desculpem, quis dizer Vinícius. Gosto tanto do que ele escreveu que já virou íntimo. É possível, no entanto, ter outras “primeiras vezes”. Podemos aprender a correr ou a tocar um instrumento musical. Que tal fazer teatro? A emoção da primeira vez em um palco deve ser indescritível. E descer ao fundo do mar? E subir ao cume de uma montanha? E conhecer a neve? Todas essas são experiências dignas de se realizar.

Estou fazendo a minha lista e cada dia me surpreendo com as coisas que ainda restam por fazer. Optar por viver constantemente experiências novas não traz de volta a juventude perdida, mas permite que mesmo com idade avançada mantenhamos o encanto da descoberta.

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