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Marcelo Harger

Opinião: Brincando de Escrever

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Brincando de Escrever”.

Várias pessoas comentam sobre o que escrevo. Normalmente são comentários carinhosos. Algumas vezes mencionam que gostariam de escrever, mas por alguma razão não o fazem.

Creio que não escrevem por considerar que literatura é “coisa séria”. Dão à literatura uma importância que não possui. Literatura é brincadeira. Ruben Alves dizia que livros são brinquedos para o pensamento. É por isso que leio e escrevo. Gosto de brincar de pensar. Há tempos escrevo de brincadeira. Brinco porque literatura não é algo solene. É diversão para a mente.

Michelangelo dizia que dentro da pedra já havia uma obra de arte, e que ele apenas retirava o excesso de mármore. A pedra da escrita está em nossa mente. Todos temos mármore da melhor qualidade em nossas cabeças. Basta talhá-lo para transformá-lo em ideias que são colocadas no papel.

É divertido pegar um pensamento, expressá-lo em palavras e transformá-lo em uma frase. É gostoso colocar tudo no papel e depois talhar o texto, retirando o excesso. Mario Quintana afirmava que é preciso escrever um poema várias vezes para que dê a impressão de que foi escrito pela primeira vez.

É assim que faço. Pego uma ideia, coloco-a no papel até que surja um texto. Corto o texto, reescrevo e simplifico tantas vezes quantas forem necessárias para que “desça redondo”. O tema pouco importa. Não precisa ser algo relevante. Ruben Alves também dizia que escrever era como catar conchinhas. O tamanho da concha não interessa. Interessante é mostrá-la para quem nunca a viu. Escrever é descobrir e mostrar a descoberta para quem não a conhecia.

Não é preciso escrever difícil. Os melhores livros são aqueles que os leitores, ao lê-los, acreditam que eles mesmos poderiam tê-los escrito. Algo não é mais verdadeiro por ser dito com palavras grandiosas. A verdade se esconde nas palavras simples. Palavras rebuscadas servem apenas para complicar.

É assim que faço. Escrevo sobre coisas simples. Escrevo porque preciso. Faço como Leminski. “Escrevo porque amanhece e as estrelas lá no céu lembram letras no papel”.

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Marcelo Harger

Opinião: Tex e o direito

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Tex e o direito”

Tex Willer é o personagem central de quadrinhos de faroeste criados pelo italiano Sergio Bonelli. Em várias histórias, o personagem, que é um ranger do Texas, enfrenta “figurões” locais que oprimem a população.

Sempre descobre com facilidade os criminosos. Normalmente encontra um personagem secundário como, por exemplo, um bêbado sendo expulso de um “saloon”, que sabe quem são os bandidos e como operam. O “bebum” conta tudo em troca de uma garrafa de uísque.

A partir daí, o ranger, como técnica de investigação, sai distribuindo tiros e sopapos até que os bandidos confessem. Ele incrivelmente acerta todas as vezes. Nunca bate ou atira nas pessoas erradas. As informações que recebe são sempre corretas, e utiliza critérios próprios para “liberar” algum bandido em troca de auxílio para prender outros. Constantemente pede ao xerife da cidade para “fechar os olhos” para os métodos pouco ortodoxos que utilizará e esse aquiesce.

Menciono os quadrinhos italianos porque atualmente vivemos um momento Tex Willer no direito brasileiro. Qualquer acusado em processos de corrupção é imediatamente preso, embora, como os profissionais do direito sabem, algumas vezes, é preciso espancar a lei para chegar à conclusão de que ela autoriza a prisão.

Como na revista, a população aplaude porque sabe que os presos são culpados. Personagens como o bêbado da história passam a propagar notícias, sem qualquer compromisso com a verdade, e grande parte da população acredita. Bandidos são soltos, com base em critérios subjetivos, por terem colaborado com a acusação.

A lógica seguida é a mesma do herói do faroeste que constantemente afirma em suas histórias não ser possível fazer uma omelete sem quebrar os ovos.

O mundo, no entanto, não é uma história em quadrinhos. A realidade não é tão simples quando um enredo de ficção. Nem sempre bêbados e bandidos contam a verdade. Tampouco a acusação é sempre correta. É por isso que existem leis disciplinando os procedimentos a serem utilizados pelos órgãos estatais de controle. Prender sem respeitá-los é fácil, mas equivale a institucionalizar o faroeste. Mais fácil, ainda, seria distribuir tiros e sopapos. Aumentaria a eficácia e acabaria com a hipocrisia de desvirtuar a lei a pretexto de aplicá-la.

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Marcelo Harger

Opinião: Saidinha

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Saidinha”

Vou tentar escrever sem paixão sobre um tema que desperta as mais profundas delas. Trata-se da negativa de permissão para que o ex-presidente Lula comparecesse ao velório do irmão. Lamento pelo fato de o ex-presidente não poder dar pessoalmente o seu último adeus ao ente querido. Na verdade lamento pelo próprio fato de ver um ex-presidente preso.

Lamento também que o Supremo Tribunal Federal admita a prisão em segunda instância. Em minha opinião técnica ninguém pode ser considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória. É a letra da Constituição. Prender antes do trânsito em julgado é prender alguém que a Constituição considera “não culpado”, ou seja, inocente. Trata-se, no entanto, de decisão que vem sendo aplicada a todos que se encontram na mesma situação. Lula, portanto, não poderia ser beneficiado em detrimento dos demais.

Vou abstrair a questão da correção da condenação. Faço isso porque aquele que diz o que a lei diz no caso concreto é o Poder Judiciário, e se o Judiciário diz que Lula deve estar preso no momento, preso ele deve estar.

Estando preso, obviamente, os seus direitos “diminuem”, pois está preso ora bolas. Isso significa dizer que certamente tem restrições quanto a receber visitas e, mais ainda, quanto a sair do presídio.

A legislação penal autoriza que se dê permissão ao preso, mediante escolta, para sair em caso de falecimento de um irmão. Trata-se de um ato excepcional. Não é, como pode parecer a primeira vista, algo que aconteça todos os dias.

Negar autorização para a saída ou não obtê-la em tempo hábil é corriqueiro. Não se trata de uma simples “saidinha”. A autorização demanda um grande aparato para o transporte, especialmente em um caso como o de Lula, que é um político que desperta paixões. Não é um preso comum. O aparato de segurança exigido é muito maior, seja para evitar uma eventual fuga, seja para protegê-lo de eventuais inimigos. Não identifico ilegalidade na negativa de saída do presídio. Trata-se de decisão previsível.

A discussão que subsiste é se efetivamente Lula deveria estar preso, e sobre esse aspecto, o Poder Judiciário ainda não se manifestou de forma definitiva. Trata-se de uma incongruência gerada pelo entendimento equivocado de nossa Corte Suprema acerca da prisão em segunda instância.

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Marcelo Harger

Opinião: Saudades do passado

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Saudades do passado”

Recebi de um amigo uma foto antiga. Foi tirada há mais de vinte anos. Nela, além de mim, estava um grupo de jovens que fora estudar inglês no exterior com o Phil Young. Não era somente na escola de inglês. Era com o Phil mesmo. Ele também estava na foto, e era o professor da minha turma.
Vendo o meu rosto jovem e ingênuo, sem quaisquer rugas, entrei em uma onda de saudosismo. Senti saudades daquela época. As coisas eram mais simples. Iniciando a faculdade de Direito. Poucas obrigações. Muitos sonhos. Praticamente três meses de férias. Brincando de músico em bandas de garagem. Pensando bem, eram de garagem enquanto eu estava nelas. Foi só eu sair que a turma fez sucesso na cidade. As duas bandas. A “Displicência” e o “Atrito”. Certamente fiz uma boa opção em encerrar a carreira de músico, e me dedicar ao Direito.

Foi, no entanto, importante lembrar essa época. Fechando os olhos pude rever mentalmente vários dos amigos que hoje só encontro no Facebook. Lembro-me do rosto de todos eles. Para mim parece que não envelheceram. Consigo revê-los com os cortes de cabelo esquisitos e as roupas, que hoje parecem ridículas, que usavam: Cristóvão, Baby, Alexandre, Maurício, Carlos, Afrânio, Digo, Carla, Milane, Dani, Lu e todos os “Marcelos”. Marcelo era um nome tão comum que certa vez havia sete na mesma sala. Todos eram chamados pelo sobrenome. Lembrei também do Clóvis que já se foi, e de muitos outros.

Enquanto escrevia fui revendo tudo e todos, e lembrando dos velhos anos 80. Para mim foi vida, e não uma festa “flashback”. O primeiro beijo no banco do colégio. Os campeonatos de tênis, em que viajávamos na Kombi. A tradicional viagem para o Rio de Janeiro do Colégio Bom Jesus na oitava série. Os vários amores que eram pra sempre, mas que mal duravam um mês. A festa em que impulsionados pelo videoclipe de Michael Jackson, fomos vestidos de “gangue” usando jaqueta e óculos escuros. As rodas de violão na praia e na casa da Maria José. O meu coração foi se enchendo com a sensação de que aquela época foi a melhor de toda minha vida.

Subitamente sinto algo cutucar o meu pé. Era uma mão “pequenina”. Olho para baixo, e vejo o Pedro sorrindo debaixo da escrivaninha querendo brincar. Creio que foi Deus que encontrou essa doce maneira de ajudar a terminar o artigo e também de lembrar-me que o momento em que sou mais feliz é agora.

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