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Um estudo baseado em 55 anos de dados hidrológicos aponta que episódios de El Niño de maior intensidade podem ser seguidos por períodos de seca mais severa e por uma redução significativa da vazão média do Rio das Velhas na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). A análise foi realizada pelo Fórum Permanente São Francisco e considera especialmente os efeitos observados nos anos posteriores a eventos classificados como muito fortes.
O trecho que exige maior atenção fica entre os distritos de Bela Fama e Honório Bicalho, em Nova Lima, onde está localizada a Estação de Tratamento de Água (ETA) Bela Fama, responsável pelo abastecimento de uma parcela significativa da população da Grande BH.
Segundo a nota técnica, quatro episódios de El Niño considerados muito fortes foram registrados nos últimos 50 anos. Nos períodos seguintes a esses eventos, houve redução da vazão média do Rio das Velhas na região metropolitana.
O pesquisador Euler Cruz, responsável pelo estudo, também identificou uma tendência histórica de redução da vazão. Desde 1971, quando começaram as medições no ponto de Honório Bicalho, a média teria diminuído cerca de 13%.
A análise relaciona esse comportamento a diferentes interferências ambientais na bacia, entre elas alterações nas condições de infiltração da água e na disponibilidade de água subterrânea.
Vazão pode cair até 47%
Em um cenário de El Niño muito forte, a nota técnica estima que a redução da vazão média do Rio das Velhas possa chegar a 47%, levando o volume para aproximadamente 15 m³/s.
O valor seria próximo das menores médias históricas registradas no ponto de medição: 14,9 m³/s em 2017 e 15,1 m³/s em 2014.
Em uma hipótese de evento ainda mais intenso, a redução da vazão poderia se aproximar de 60%.
O estudo ressalta, porém, que os números representam uma projeção associada a cenários climáticos e não uma previsão determinística. A resposta hidrológica depende também de outros fatores meteorológicos e das condições da própria bacia.
Segurança hídrica entra no planejamento
A possibilidade de redução das vazões vem sendo acompanhada pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas (CBH Rio das Velhas). Euler Cruz e representantes do Fórum Permanente São Francisco apresentaram o estudo ao Convazão, grupo gestor voltado ao acompanhamento das condições de disponibilidade hídrica no Alto Rio das Velhas, trecho considerado estratégico para o abastecimento da Região Metropolitana.
O tema também foi discutido no Seminário Segurança Hídrica na RMBH, realizado em maio, que reuniu debates sobre desafios, estratégias e soluções para o futuro do abastecimento.
A preocupação se concentra especialmente no alto Rio das Velhas, área que abrange parte do Quadrilátero Ferrífero e possui importantes áreas de contribuição para o sistema de abastecimento metropolitano.
Entre os fatores que podem interferir na disponibilidade de água estão mudanças no uso e ocupação do solo, atividades minerárias, expansão urbana e captações de água subterrânea. A redução da infiltração da chuva e da recarga dos aquíferos pode comprometer a contribuição subterrânea para os rios, principalmente durante períodos de estiagem.
Por isso, o planejamento da disponibilidade hídrica precisa considerar não apenas a quantidade de chuva prevista, mas também as condições de armazenamento e de recarga dos sistemas superficiais e subterrâneos.
Medidas de prevenção
Para o Fórum Permanente São Francisco, a possibilidade de períodos de estiagem mais severos reforça a necessidade de antecipar medidas de preparação para eventuais impactos sobre o abastecimento.
Entre as recomendações estão a inclusão de cenários de redução da vazão nos planos de contingência do abastecimento da Região Metropolitana, a revisão de outorgas e de rebaixamentos de aquíferos na bacia e o aprimoramento do controle sobre captações irregulares de água subterrânea.
Euler Cruz, que também é professor associado do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências da UFMG, ressalta a necessidade de considerar as incertezas das previsões climáticas. Mesmo quando o volume total de chuva não muda significativamente, alterações na distribuição das precipitações podem dificultar a recuperação dos níveis de rios e reservatórios.
A preparação envolve, portanto, o acompanhamento das condições climáticas e hidrológicas, além de ações para reduzir o consumo, estimular o uso racional da água e preservar as condições ambientais que contribuem para a manutenção das vazões.
El Niño deve influenciar primavera e verão
Segundo Wellington Lopes Assis, professor associado do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências da UFMG, o El Niño pode favorecer períodos de temperaturas mais elevadas e mudanças na distribuição das chuvas.
Uma nota técnica publicada pelo Centro de Inteligência em Defesa Civil (Cindec) em agosto também apontou temperaturas acima da média em praticamente todo o território de Minas Gerais. A perspectiva apresentada é de manutenção da atuação do El Niño durante a primavera e o verão, com enfraquecimento gradual no início de 2027.
Os efeitos, contudo, não são necessariamente iguais em todos os episódios. Outros fenômenos e anomalias atmosféricas também interferem nas condições de temperatura e precipitação e podem modificar a intensidade e a duração dos efeitos associados ao El Niño.
O que diz a Copasa
A Copasa informou que está avaliando a nota técnica produzida pelo Fórum Permanente São Francisco. Segundo a companhia, uma consultoria especializada em meteorologia e climatologia acompanha continuamente as condições que possam impactar os mananciais e os sistemas de abastecimento. A empresa também afirmou que monitora os possíveis efeitos de fenômenos meteorológicos, como o El Niño, e adota medidas de preparação para eventos climáticos extremos.
A Copasa informou ainda que os investimentos realizados pela empresa consideram critérios de segurança hídrica, resiliência e robustez operacional dos sistemas de abastecimento. Entre as intervenções citadas estão a ampliação e modernização do Sistema Rio Manso e a implantação de novas adutoras.
No Sistema Rio das Velhas, que atende parcela significativa da Região Metropolitana e cerca de 70% de Belo Horizonte, a companhia informou que está implantando um sistema de Ultrafiltração na ETA Bela Fama, apresentado pela empresa como uma etapa adicional de segurança no tratamento da água.
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