Um ano após a morte do gari Laudemir de Souza Fernandes, de 44 anos, o caso ainda aguarda um desfecho na Justiça. O trabalhador foi morto a tiros na manhã de 11 de agosto de 2025, enquanto participava da coleta de lixo no bairro Vista Alegre, na Região Oeste de Belo Horizonte.
Nesta terça-feira (11), data que marca um ano do crime, Renê da Silva Nogueira Júnior, de 48 anos, acusado de efetuar o disparo que matou o gari, permanece preso e aguarda julgamento pelo Tribunal do Júri.
O empresário também recebeu autorização da Justiça para cursar Gestão Financeira na modalidade de Ensino a Distância (EAD) enquanto está detido. A decisão foi concedida em maio deste ano, mas a informação só foi divulgada na noite dessa segunda-feira (10).
O acesso à internet deverá ser acompanhado pelo Presídio de Caeté, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Segundo a decisão, a unidade deverá fazer uma “rígida supervisão” para garantir que o recurso seja utilizado exclusivamente nas atividades acadêmicas. Em caso de descumprimento, o benefício poderá ser suspenso e o detento poderá responder por falta disciplinar.
Como aconteceu o crime
Na manhã de 11 de agosto de 2025, Renê saiu de casa, em Vila da Serra, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, com destino ao trabalho, em Betim. Segundo a denúncia do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), ele carregava uma pistola semiautomática calibre .38.
Durante o trajeto, o empresário chegou ao cruzamento das ruas Modestina de Souza e Jequitibá, no bairro Vista Alegre, onde uma equipe realizava a coleta de lixo.
De acordo com a denúncia, o caminhão ocupava parte da via e Renê teria se irritado com a retenção do trânsito. Os trabalhadores teriam informado que era possível passar pelo local, mas, ainda segundo o Ministério Público, ele teria se exaltado, apontado a arma para a motorista do caminhão e feito ameaças.
Laudemir e outros trabalhadores tentaram intervir na discussão. Conforme a acusação, Renê efetuou um disparo que atingiu o gari na região abdominal.
Laudemir foi socorrido e levado para uma unidade de saúde, mas não resistiu. A morte do trabalhador durante o expediente provocou revolta entre familiares, colegas de profissão e moradores da capital. O Ministério Público classificou o homicídio como triplamente qualificado, apontando motivo fútil, recurso que teria dificultado a defesa da vítima e perigo comum, devido ao disparo realizado em via pública.
Prisão ocorreu horas depois
Após o crime, Renê deixou o local. Ele foi localizado e preso horas depois em uma academia na Região Oeste de Belo Horizonte. A prisão em flagrante foi convertida em preventiva e, desde então, ele permanece no sistema prisional.
Em setembro de 2025, a Justiça recebeu a denúncia do Ministério Público e Renê se tornou réu. Além do homicídio qualificado, ele responde por ameaça contra a motorista do caminhão, porte ilegal de arma de fogo e fraude processual.
Suspeita de troca da arma
Outro ponto que ampliou a repercussão do caso foi a investigação sobre a arma utilizada no crime. Segundo o Ministério Público, Renê teria pedido à esposa, a delegada da Polícia Civil Ana Paula Lamego Balbino, que entregasse à polícia uma segunda arma, diferente daquela que teria sido usada para matar Laudemir. A acusação aponta que a intenção seria induzir a perícia oficial a erro.
Por causa disso, Renê também responde por fraude processual. O processo envolvendo a esposa foi desmembrado e passou a tramitar separadamente. Segundo o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), Ana Paula foi investigada por porte ilegal de arma de fogo, na modalidade de ceder ou emprestar, e por prevaricação.
Renê será julgado pelo Tribunal do Júri
Em janeiro de 2026, a Justiça decidiu que Renê será levado a júri popular pelo assassinato de Laudemir. Na decisão de pronúncia, a juíza Ana Carolina Rauen Lopes de Souza considerou que havia provas da materialidade do crime e indícios suficientes de autoria para que o caso fosse analisado pelo Conselho de Sentença.
As qualificadoras de motivo fútil, perigo comum e recurso que teria dificultado a defesa da vítima foram mantidas. A magistrada também mencionou a “frieza da conduta” e a “completa indiferença” atribuídas ao acusado em relação à vida humana. A decisão, porém, não representa uma condenação. Renê ainda será julgado pelo Tribunal do Júri, e a data do julgamento deverá ser definida pela Justiça.
Faculdade durante a prisão
Enquanto aguarda o julgamento, Renê poderá continuar os estudos dentro do sistema prisional. A decisão judicial permite que ele curse Gestão Financeira a distância. O acesso à internet, porém, deverá ser acompanhado rigorosamente pela unidade prisional.
Na decisão, a Justiça considerou que a educação é um direito garantido pela Constituição e que atividades educacionais podem contribuir para a disciplina e a ressocialização de pessoas privadas de liberdade. A autorização para estudar não altera a situação processual do réu. Renê continua preso, responde pelo assassinato de Laudemir e será submetido ao Tribunal do Júri.
Um ano após uma discussão relacionada ao trânsito terminar com a morte de um trabalhador, o caso segue sem julgamento. Para a família e os colegas de Laudemir, a expectativa agora é pela realização do júri e pela definição da responsabilidade criminal do acusado.
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