A capitã da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) Michele Leão Azevedo, encontrada morta na noite de segunda-feira (20), em Belo Horizonte, construiu uma trajetória de 16 anos na corporação, com atuação na área de segurança pública e formação voltada ao ensino e aos direitos humanos. O principal suspeito da morte é o marido dela, o sargento Eduardo Abner Pereira de Oliveira, preso em flagrante após levá-la ao Hospital Odilon Behrens.
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Michele iniciou a formação militar em 2008 e concluiu o Bacharelado em Ciências Militares pela PMMG em 2010, quando passou a atuar como oficial da corporação. Ao longo da carreira, especializou-se em segurança pública e, em 2023, concluiu uma pós-graduação em Docência no Ensino Superior pelo Instituto Federal do Sul de Minas Gerais (IFSULDEMINAS).
Como trabalho de conclusão de curso, pesquisou “A importância do estudo da jurisprudência dos Tribunais Superiores na PMMG”, abordando a aplicação de decisões judiciais na atividade policial militar. Em 2022, também participou do curso de formação complementar de Multiplicador de Direitos Humanos promovido pela PMMG. Antes da carreira militar, estudou nos colégios militares de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro.
Morte é investigada
Michele foi levada pelo próprio marido ao Hospital Odilon Behrens, na Região Noroeste de Belo Horizonte, por volta das 21h35 de segunda-feira, já sem sinais vitais. A equipe médica constatou um quadro de assistolia, compatível com parada cardiorrespiratória ocorrida horas antes.
Durante o atendimento, os profissionais identificaram múltiplas lesões pelo corpo da capitã, incluindo traumatismo craniano, hematomas, ferimentos nas pernas, marcas lineares compatíveis com golpes e um corte de grandes proporções na região frontal da cabeça. Diante dos indícios de violência, a Polícia Militar foi acionada.
Segundo avaliação médica, a morte teria ocorrido entre quatro e seis horas antes da chegada ao hospital.
Versão apresentada pelo sargento
Em depoimento, Eduardo Abner Pereira de Oliveira afirmou que, na noite anterior, o casal realizou uma confraternização em casa, durante a qual consumiu bebidas alcoólicas e comprimidos de ecstasy.
Segundo ele, após a saída dos convidados, os dois mantiveram relações sexuais consensuais com práticas de dominação e agressões físicas. O militar disse ainda que, por volta do meio-dia de segunda-feira, Michele caiu da escada da residência, sofrendo um corte na cabeça e outros ferimentos.
Ainda conforme seu relato, ele prestou os primeiros socorros, deu banho na esposa, conteve o sangramento e a colocou para descansar. O sargento afirmou que Michele recusou atendimento médico por estar constrangida com o consumo de drogas.
Ele declarou que ambos dormiram durante a tarde e que, ao acordar por volta das 21h, percebeu que a esposa não respondia aos estímulos, decidindo levá-la ao hospital.
Ecstasy apreendido
O boletim de ocorrência aponta ainda que, enquanto aguardava atendimento na unidade de saúde, o sargento pediu para ir ao banheiro. Acompanhado por um policial, ele foi visto descartando uma pequena caixa metálica em uma lixeira.
Dentro do recipiente foram encontrados comprimidos com características semelhantes ao ecstasy. Eduardo confirmou que havia descartado o material, que foi apreendido e encaminhado para perícia.
Família relata relacionamento abusivo
Em depoimento à Polícia Civil, a mãe e a irmã da capitã descreveram o relacionamento do casal como abusivo e marcado por controle psicológico.
Segundo a mãe, Michele viveu sucessivas separações e reconciliações ao longo de cerca de oito anos. Ela afirmou que o militar manipulava emocionalmente a filha, a humilhava e não aceitava o fim do relacionamento. Ainda conforme o depoimento, Michele tentava encerrar a relação e, em uma discussão anterior, o sargento teria chegado a empunhar uma faca.
Perícia e investigação
Durante os trabalhos periciais no apartamento do casal, a Polícia Civil apreendeu um cabo de madeira quebrado encontrado no lixo do prédio, além de roupas de cama que estavam lavadas e ainda molhadas na máquina de lavar.
O veículo utilizado para transportar Michele ao hospital também foi periciado e removido. O celular do sargento e os comprimidos apreendidos serão submetidos à análise.
O corpo da capitã foi encaminhado ao Instituto Médico-Legal (IML), onde passará por exame de necropsia para determinar a causa da morte.
Em nota, a defesa de Eduardo Abner Pereira de Oliveira informou que acompanha as investigações e afirmou ser necessário aguardar a conclusão dos laudos periciais antes de qualquer julgamento. Os advogados disseram confiar no devido processo legal, na imparcialidade da apuração e afirmaram que irão se manifestar no momento oportuno, preservando o direito de defesa e o sigilo do procedimento.

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