As características montanhosas de Minas Gerais, historicamente celebradas na cultura e na arte, hoje acendem um alerta. Após quatro décadas de expansão urbana e diante do agravamento de eventos climáticos extremos, o estado passou a liderar o ranking nacional de áreas urbanizadas em terrenos com alta declividade, o que eleva o risco de deslizamentos e desabamentos. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (4) pelo MapBiomas.
Segundo o levantamento, entre 1985 e 2024, a área urbanizada nos 853 municípios mineiros saltou de 192,5 mil para 480,7 mil hectares, crescimento de 150%. Desse total, cerca de 14,5 mil hectares estão situados em encostas com inclinação superior a 30%, consideradas áreas de maior vulnerabilidade.
De acordo com a pesquisadora Talita Micheleti, da equipe de mapeamento do MapBiomas, o avanço das cidades sobre relevos acentuados é um traço marcante em Minas, especialmente na Zona da Mata. O estado é o segundo do país em extensão de área urbanizada e enfrenta desafios constantes impostos pela própria geografia.
Juiz de Fora entre as cidades mais vulneráveis
Juiz de Fora aparece como a terceira cidade brasileira com maior ocupação urbana em áreas de encosta, atrás apenas de Rio de Janeiro e São Paulo. O município da Zona da Mata concentrou 65 das 72 mortes registradas em fevereiro de 2026 em decorrência das chuvas.
Na cidade mineira, a ocupação dessas áreas mais que dobrou no período analisado, passando de 547 hectares, em 1985, para 1.256 hectares em 2024. Já Belo Horizonte, que ocupava a segunda posição no ranking há quatro décadas, foi superada por São Paulo e por Juiz de Fora, registrando atualmente 1,2 mil hectares urbanizados em encostas.
Entre as dez cidades brasileiras com maior área ocupada em terrenos íngremes, quatro estão em Minas: Juiz de Fora, Belo Horizonte, Sabará e Ipatinga.
Favelas em áreas de risco
O estudo também aponta o crescimento de favelas localizadas em regiões de alta declividade. Minas Gerais ocupa a terceira posição no país, com 1.057 hectares nessas condições, atrás do Rio de Janeiro (1.730 ha) e de São Paulo (1.061 ha).
Em nível nacional, a área de favelas situadas em encostas passou de 2.266 hectares, em 1985, para 5.704 hectares em 2024, aumento superior a 150%. Também houve crescimento expressivo das ocupações próximas a áreas de drenagem, com expansão superior a 200% no período analisado.
Para a coordenadora do estudo, Mayumi Hirye, os impactos das mudanças climáticas tendem a atingir de forma mais severa as populações vulneráveis. Segundo ela, a expansão urbana em áreas sensíveis ocorre em ritmo acelerado e precisa ser considerada no planejamento das cidades, sobretudo diante da intensificação de eventos extremos.
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