A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) abriu um inquérito para investigar se a construção de prédios no bairro Belvedere, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, pode ter contribuído para o aumento da temperatura média da capital mineira. A apuração trata da suspeita de crime ambiental relacionado à formação de barreiras artificiais que estariam interferindo na circulação natural dos ventos na cidade.
O procedimento foi instaurado na última semana de 2025, inicialmente pela Central Estadual do Plantão Digital, e posteriormente encaminhado ao Departamento Estadual de Investigação de Crimes Contra o Meio Ambiente (Dema). O objetivo é reunir elementos técnicos e científicos capazes de apontar se as edificações impactaram o microclima de Belo Horizonte.
De acordo com o delegado Daniel de Carvalho Isidório, responsável pela investigação, a abertura do inquérito foi motivada por estudos acadêmicos, reportagens jornalísticas e também por relatos recorrentes da população.
“Quando chega o período de calor, esse debate sempre volta, especialmente entre os moradores de Belo Horizonte. Diante disso, decidimos aprofundar a análise”, afirmou.
Segundo o delegado, se for comprovado que houve elevação artificial da temperatura em decorrência das construções, a situação pode caracterizar crime ambiental, com reflexos diretos na qualidade de vida da população, como aumento no consumo de energia, água e gastos com saúde.
A investigação se concentra principalmente nos prédios do chamado Belvedere III, erguidos em áreas próximas à avenida Luiz Paulo Franco e à Estrada de Nova Lima. A suspeita é de que as edificações tenham criado uma espécie de “paredão de concreto”, bloqueando a entrada de correntes de ar provenientes da Serra do Curral e da região do Quadrilátero Ferrífero, fundamentais para a ventilação natural da capital.
A Polícia Civil informou que irá ouvir especialistas, urbanistas, representantes de empresas, órgãos públicos e estudiosos da área ambiental. Paralelamente, será elaborado um laudo pericial ambiental pela perícia oficial da instituição. “Será um laudo robusto e técnico, essencial para confirmar ou descartar a existência de crime ambiental”, explicou Isidório.
Dados climatológicos reforçam a preocupação. Registros do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) indicam que a temperatura média anual de Belo Horizonte aumentou cerca de 3 °C entre 2000 e 2024, atingindo aproximadamente 24,5 °C no último ano. Já levantamentos do portal StatsClimat apontam uma tendência de elevação de cerca de 0,29 °C por década desde a década de 1970, associada, em parte, aos efeitos da urbanização.
O aquecimento também tem se refletido em episódios recentes de calor extremo. Em março de 2025, por exemplo, as temperaturas máximas e mínimas médias ficaram mais de 1 °C acima dos padrões climatológicos de referência, conforme balanços meteorológicos.
Especialistas ouvidos ao longo dos anos já alertavam para os impactos da verticalização no Belvedere. O engenheiro perito Clemenceau Saliba lembra que, em 2011, uma perícia do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) apontou irregularidades no projeto urbanístico da região e impactos na paisagem da Serra do Curral. Segundo ele, grandes empreendimentos exigem planejamento integrado, que leve em conta abastecimento de água, esgotamento sanitário, trânsito e efeitos ambientais.
O arquiteto e urbanista Roberto Andrés também destaca que estudos indicam que a verticalização do bairro contribuiu para o aumento da temperatura média da cidade. Para ele, mudanças bruscas no padrão construtivo deveriam ser precedidas por análises aprofundadas.
“Grandes prédios afetam o trânsito, os ventos e a paisagem urbana. Esse caso deveria servir de lição”, afirma.
A região do Belvedere já foi alvo de decisões judiciais anteriormente. Em 2017, onze empresas responsáveis por construções no local foram condenadas a pagar R$ 27,8 milhões após ação do MPMG, devido à obstrução da vista da Serra do Curral. A Justiça considerou que o dano urbanístico era irreversível e impôs restrições à Prefeitura de Belo Horizonte para autorizações futuras na área.
Caso o novo inquérito confirme que as construções alteraram o regime de ventos e contribuíram para o aumento da temperatura na capital, a responsabilização poderá alcançar empresas e até outras esferas do poder público. A investigação segue em andamento.
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