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Marcelo Harger

Opinião: Escolhas

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Escolhas”

Por Dentro de Minas - Google News (pordentrodeminas - googlenews)

Desde a infância tenho o hábito da leitura, mas foi somente “depois de velho” que pude ler alguns dos clássicos da literatura infantil. Surpreendo-me com os ensinamentos que esses livros trazem de forma quase imperceptível. O último deles foi “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carrol.

Há uma conversa interessantíssima entre Alice e o Gato. Ela pergunta como faz para sair dali, e o gato responde que isso depende de para onde ela pretende ir. Alice retruca que tanto faz, e o gato diz que nesse caso pouco importa o caminho que ela tome. Tentando se explicar, Alice acrescenta que o caminho não tem importância desde que chegue a algum lugar. O gato conclui a conversa dizendo que ela então andará bastante. Em outra passagem Alice relata que dava ótimos conselhos a si mesma, mas raramente os seguia.

Algumas vezes agimos em nossas vidas como verdadeiras Alices. Reclamamos que não chegamos a lugar algum, mas não temos uma ideia clara de onde queremos chegar. Queixamo-nos das dificuldades no caminho sem perceber que nenhum vento é favorável àquele que não tem direção.

Há até momentos em que sabemos o melhor rumo, mas agimos como se estivéssemos no país das maravilhas e desprezamos “os próprios conselhos”. Por alguma razão mágica, julgamos que eles servem para os outros e não para nós mesmos e seguimos rumando sem saber onde queremos chegar.

Não há problema em não ter direção desde que esse seja um ato de escolha consciente. A sabedoria popular de Zeca Pagodinho já ensinou: “deixa vida a vida me levar, vida leva eu. Sou feliz e agradeço por tudo o que Deus me deu”.

Escolhas desse tipo, no entanto, são excludentes. Para cada opção feita há outra que se fecha. Quando escolho um caminho abdico do oposto. O mesmo ocorre quando decido não ter rumo algum. Independentemente da opção que se tome, é importante reconhecer que cada escolha é um ato de vontade. É preciso perceber que somos responsáveis pela vida que levamos, e ter a coragem de admitir as consequências de nossas decisões.

Colunista da Por Dentro de Minas. Marcelo Harger advogado em Joinville, escritor, membro da Academia Joinvilense de Letras, mestre e doutor em Direito do Estado pela PUC-SP, MBA em Gestão empresarial pela Fundação Getúlio Vargas.

Marcelo Harger

Opinião: Quem queria ter sido

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Quem queria ter sido”

Sinto no meu peito o desalento por aquilo que não fiz. Subitamente me dei conta de que não farei em minha vida tudo o que havia almejado. Não conhecerei todos os lugares que gostaria de conhecer e não viverei todos os amores que pensei que viveria. Enfim, não serei quem gostaria de ter sido.

Ao aproximar-me dos cinquenta anos a realidade bateu à porta. Comecei a pensar em tudo o que sonhei. Senti saudades daquele “eu” que não consegui ser. Por alguma razão, aquela pessoa que eu seria simplesmente deixou de acontecer. Algo surgiu no caminho e desfez aquele que eu queria vir a ser.

A culpa foi minha. Tomei decisões que me afastaram do destino que eu havia para mim traçado. Foram decisões necessárias, mas que me tiraram do caminho que queria seguir. Hoje estou distante do que almejava, mas foi por opção. A vida impôs certos obstáculos e tive que escolher.

Busquei as melhores escolhas, mas nem sempre escolher corretamente me levava em direção ao caminho que havia traçado. Desvios aconteceram e não posso maldizer a vida.

Escolhi por que quis e não me arrependo do rumo que as coisas tomaram. Sou feliz, mas de outro jeito. Tenho filhos, e isso é uma coisa com a qual nunca sonhei. Jamais me imaginei sendo pai, ou que ser pai pudesse ser tão bom. Tenho um grande amor, ao invés de vários amores, e também não imaginava o quanto de plenitude uma grande parceria com uma mulher pode gerar.

Vivi plenamente e não lamento o caminho que segui. Sempre fiz as melhores escolhas considerando a experiência que tinha no momento de fazê-las.

Hoje, posso ver que errei muito, apesar de sempre tentar acertar. Muito mais do que poderia e deveria. Sofri muito mais do que imaginava ser possível, e por razões que hoje me fazem apenas sorrir. Segui errando e sofrendo numa tentativa insensata de ser quem gostaria de ser. Mal sabia eu que a vida tem os seus próprios planos para cada um de nós, e ela cuidava de corrigir os meus caminhos.

Atualmente, olho com saudades para aquele que não fui, mas não tenho arrependimentos. Seria interessante aquela existência mais movimentada e despreocupada, mas não teria a plenitude e a maturidade da vida que tenho hoje.

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Marcelo Harger

Opinião: Abudo da Mocidade

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Abudo da Mocidade”

Cada um tem uma lembrança diferente de cada época de sua vida. Lembro do tempo em que estava na faculdade, quando os alunos tomaram a reitoria do PUC em protesto ao aumento na mensalidade.

Eu, que estudava na federal, também fui na greve da PUC, que se tornou o ponto de balada na cidade. Bandas tocando, etc. Lembro que levei uma pequena garrafa de vodka e fui admoestado por um dos supostos organizadores. A maconha corria solta, mas vodka aparecendo na garrafa não podia. Só podia se estivesse misturada na coca. Vai entender uma coisa dessas.

Para alguns, certamente a lembrança daqueles dias foi de luta contra o capitalismo opressor. Para mim a lembrança foi de muita paquera e azaração. Cada um teve uma visão diferente daquela mesma situação.

Relembro desse momento por causa das situações vivenciadas em virtude do corona vírus. Para mim é um momento chatíssimo em que vou de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Li, no entanto, que em Florianópolis as baladas estão comendo soltas em festas privadas.

Em uma delas fizeram até a dança do coveiro, em que uma pessoa se deita e as outras a levantam nos ombros como se estivessem carregando um caixão. Mal gosto danado, mas pela cara da turma a cachaça estava boa. Ou melhor, cachaça nada. Ali só tem whisky blue label pra cima.

Cada pessoa tem uma percepção diferente da realidade. Eu não encontro ânimo nem mesmo para convidar um casal de amigos para ir na minha casa. Tenho medo até mesmo de visitar meus pais. Outros não estão nem aí. Levam a vida como uma festa, e nessa festa vale até piada com coveiro.

A despreocupação é tanta que nem parece que estamos passando por uma situação de saúde tão séria em nosso estado. Invejo a alegria dos festeiros. Quisera eu ter um pouco dessa felicidade para mim.

Infelizmente, no entanto, não consigo. Fico com a impressão de que festejar nesse momento tão triste, fazendo piada sobre quem vai pra cova, não é de bom gosto. Talvez a falta de consciência seja em virtude da idade, mas pensando bem, pelas filmagens que vi, os baladeiros não eram tão jovens assim. Pode ser por isso que dizem que a juventude está na cabeça das pessoas, e não nos anos vividos. Pelas imagens que vi, certamente nas cabeças daquelas pessoas há apenas o adubo da mocidade.

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Marcelo Harger

Opinião: Um artigo para lembrar

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Um artigo para lembrar”

Ela quer tudo. Quer até mesmo votar. Tem apenas três anos e só sabe que quer. Nem sabe o que, mas quer. Estava conversando com minha esposa sobre votar, e logo minha pequena interrompeu: também quero! Ao descobrir que não podia, abriu o berreiro. Parecia dizer: que democracia é essa que não permite o voto das crianças! Talvez seja o prenúncio de uma futura carreira política.

Distraí a atenção da pequena e logo a calma sobreveio. Foi só dizer que ia ao mercado que nova altercação começou. Vou junto, disse ela. Minha querida, você não pode por causa do Corona Vírus. Novo choro, dizendo: esse “colona vílus é uma doga”.

Você tem razão minha filha. É uma droga mesmo. Todos estão limitados por ele. Entendo a tua impaciência por não poder sair de casa. Logo você que é tão “rueira” e “festeira”. Que quer fazer tudo, agarrar o mundo com as mãos. Sei que ficar trancada em casa não é fácil, ainda mais com o sol brilhando. É tão pequena, mas tem tanto anseio por liberdade. Todo o seu ser mostra a alegria de viver. Um sorriso que ilumina o mundo. Uma coragem de quem encara tudo de frente.

Deixar você presa em casa dói em meu coração. Ver as lágrimas escorrendo do seu rosto por não poder ir comigo me exaspera, mas faço isso pelo seu bem. Adoro quando você vai comigo ao mercado, mas é melhor prevenir do que remediar. Não quero que nada de mal aconteça ao meu “pudinzinho”.

Logo tudo voltará ao normal e vamos poder brincar juntos do que você quiser, ao ar livre. Quero te ver correr lá fora, brincando com as outras crianças do condomínio. É só toda essa loucura passar. E ela vai passar. Basta dar tempo ao tempo. Você vai voltar a ser minha companheira de “andanças” no final de semana e juntos vamos fazer o que quiser. Até lá, vou tentar diminuir o seu sofrimento. Desde que seja dentro de casa, brinco de pega-pega e esconde-esconde. Aceito brincar de casinha e até deixo você me maquiar. É uma promessa e, se eu esquecer, a mamãe certamente mostrará esse artigo para me fazer lembrar.

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