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Marcelo Harger

Opinião: Dúvidas

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Dúvidas”

Antigamente as possibilidades de escolha eram menores. A profissão a ser seguida, quando o filho fosse homem era a do pai. As mulheres seriam donas de casa. Casar era uma obrigação, e a escolha do parceiro ideal era feita pela família. Havendo uma única opção o sofrimento causado pela dúvida inexistia. Inexistia também a culpa por escolher errado e a responsabilidade pelos próprios atos.

O mundo moderno trouxe uma maior liberdade para o ser humano. A quantidade de opções que temos em nossa vida torna o ato de decidir cada vez mais difícil. São tantas as opções que muitas vezes estacamos diante das escolhas mais básicas. Até mesmo comprar uma calça jeans pode tornar-se um sacrifício diante de tantas marcas e modelos.

A quantidade de opções ocorre também em relação às coisas mais sérias. Que profissão seguir? Casar, permanecer solteiro ou em união estável? É muito difícil que alguém tenha completa certeza quando faz escolhas desse tipo e o excesso de opções causa angústias.

É natural que isso ocorra, pois como ensinava Baltazar Gracián em a “Arte da Prudência”, é perigoso fazer algo de que a própria prudência duvida. Indagava, ainda, como poderia dar certo aquilo que, logo depois de pensado, já desperta receios? E concluía afirmando que o mais seguro seria nada fazer, porque os maus prognósticos normalmente se confirmam.

Embora esses conselhos devam ser respeitados, jamais poderão ser aceitos como uma verdade inatacável em todas as situações. Ser prudente não é o mesmo que ser omisso. Deixar de agir quando a ação era obrigatória pode causar mais prejuízos do que agir equivocadamente.

É necessário ter em mente que as dúvidas são inerentes aos seres humanos. Não há quem nunca tenha hesitado diante de uma decisão importante a ser tomada. Não é possível saber de antemão o resultado de cada escolha. É possível, no entanto, utilizar uma regra básica da filosofia chinesa para nos ajudar a escolher. O melhor curso de ação é sempre aquele que nos deixa sem culpa nem arrependimento. Agindo desse modo, mesmo quando as coisas derem errado, será possível dormir em paz.

Colunista do Por Dentro de Minas. Marcelo Harger, advogado, escritor, membro da Academia Joinvilense de letras, mestre e doutor em direito público.

Marcelo Harger

Opinião: Tudo de bom

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Tudo de bom”

Há pessoas que são tudo de bom. Por alguma razão irradiam o ambiente de luz. Mal as conhecemos e sentimos confiança para confidenciar-lhes as nossas vidas. Trazem alegria. A própria presença faz bem.

Sentimo-nos confortados perto desses seres iluminados. Encaram a vida de cima. Não existem problemas insolúveis para eles, ou melhor, nem mesmo existem problemas. No máximo contratempos, vicissitudes. Nos momentos em que nos sentimos mais desesperados lá estão eles, com aquela serenidade para aconselhar e distribuir bom senso.

Tudo fica fácil depois de com eles conversarmos. Sempre tiram uma solução da cartola. Algumas vezes nos dizem o óbvio, que naquele momento está invisível aos nossos olhos. Outras ratificam o que já pensávamos. Mas a concordância dessas pessoas traz paz e segurança aos nossos corações. Há também ocasiões em que resolvem o impossível. Agem como verdadeiros mágicos.

Finalmente, há casos em que nada fazem, porque não existe o que fazer. Apenas nos olham com aquela cara de que nos compreendem e nos ajudam a aceitar o inevitável. De alguma maneira o fato de sermos compreendidos por eles é reconfortante. Traz alento. Diminui a importância das dificuldades.

Pessoas assim são raras como diamantes. São seres iluminados que “fazem o bem sem olhar a quem”. Vieram ao mundo para fazer a diferença e com suas atitudes o torna um lugar melhor para se viver. Agem de forma natural, sem esperar qualquer tipo de reconhecimento. Contentam-se em fazer o que é certo pelo simples prazer de acertar. Trazem poesia para um mundo em que cada vez existe menos amor.

É nesses indivíduos especiais que devemos pensar em nosso dia a dia. Sigamos o exemplo que eles nos dão. Imitemos, ainda que com imperfeições. Cada ser humano é diferente e, por isso, jamais poderíamos ser cópias fiéis. Utilizando-os como modelo, estaremos desenvolvendo a luz interior que existe em cada um de nós.

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Marcelo Harger

Opinião: Eu morro também

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Eu morro também”

Recebo diversas mensagens religiosas pela internet. Algumas contam que John Lennon disse que os Beatles eram mais populares que Jesus, e foi assassinado logo em seguida. Outras que Tancredo Neves teria dito que se tivesse quinhentos votos de seu partido, nem Deus o tiraria da presidência da república, e ele faleceu antes de assumir. O mesmo teria acontecido com o Titanic, cujo dono, em entrevista para a imprensa, teria dito que nem Deus afundaria o seu navio e, como se sabe, o naufrágio acabou sendo a maior tragédia naval da história.

Essas mensagens, de um modo geral, procuram exaltar o poder de Deus. Concordo com a conclusão: Deus é poderoso. Discordo, contudo, das premissas. Obviamente nenhuma dessas frases foi um desafio a Deus. Foram modos de expressão para reforçar uma ideia. Algo parecido com a expressão “ai meu Deus”, que serve para reforçar uma ideia de medo, ou “juro por Deus”, que transmite a impressão de seriedade no que se está afirmando.

A frase de John Lennon, por exemplo, ressalta a perda de fiéis da religião cristã. Atualmente boa parte da população acredita que o cristianismo precisa se reinventar. Tancredo, caso a frase seja real, quis dizer que se tivesse quinhentos votos teria certeza de que venceria a eleição. O dono do Titanic tentou apenas reforçar a ideia de segurança do navio.

No meu entendimento, as tragédias apontadas não foram obra de Deus. O Deus em que acredito é muito melhor do que isso. Nem mesmo quando afrontado utilizaria a mesquinharia da vingança. Ele ensina a amar os inimigos, a fazer bem aos que nos odeiam, a bendizer os que nos maldizem, a orar pelos que nos insultam e, finalmente, a dar a outra face àquele que nos bate.

Embora essas considerações pareçam óbvias, achei melhor esclarecer, porque quando tive o privilégio de ser eleito integrante da academia joinvilense de letras, brinquei que agora seria “imortal”, recebi, imediatamente, uma nova mensagem dessa espécie. Por precaução, resolvi deixar claro, não para Deus, que tudo sabe, mas para as pessoas, de que eu morro sim. Quero me precaver em relação a algum doido que queira tirar “a prova dos nove”.

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Marcelo Harger

Opinião: Fascista sem saber

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Fascista sem saber”

Hoje em dia é comum ver as pessoas acusando umas às outras de fascistas. É um termo que serve para designar alguém de quem não gostamos. O termo acabou por degenerar num insulto genérico, sem um significado preciso.

Yuval Noah Harari faz uma bela reflexão sobre o tema no livro 21 lições para o século 21. Segundo ele a palavra fascismo vem do latim “fascis”, que significa feixe de varas. Uma vara isolada é fraca e pode ser facilmente quebrada. Quando estão juntas numa “fascis” é quase impossível quebrá-las. É por isso que se privilegia a coletividade em detrimento da pessoa. A união é poderosa. O indivíduo é fraco. Os interesses do grupo, unido sob o conceito de nação, deve preponderar independentemente de quaisquer circunstâncias sobre os interesses dos demais.

O problema é que a banalização do uso do termo faz com que o fascismo pareça algo ruim. Um verdadeiro monstro. O óbice é que se aparentasse ser um monstro ninguém seguiria a doutrina. É o mesmo erro que os filmes de Hollywood cometem ao apresentar vilões como Voldemort, lorde Sauron ou Darth Vader. Os três são homens feios e cruéis até mesmo com os seus apoiadores. Como seguir alguém assim?

Conforme alerta o autor, “o problema com o mal é que, na vida real, ele não é necessariamente feio. Pode ser muito bonito na aparência”. Essa é a dificuldade em resistir às suas tentações. É também por isso que é difícil lidar com males como o fascismo. Os alemães olhavam a nação alemã na década de 30 e a viam como a coisa mais linda do mundo. Perderam-se na beleza daquele coletivo inventado.

O culto a essa coletividade é sedutor porque simplifica o mundo. Dilemas difíceis tornam-se fáceis. É simples avaliar a arte: se atende os interesses do grupo é boa. É também fácil avaliar a educação: a adequada é a que ensina o pensamento da classe. E por aí vai…

Além disso, é extremamente atraente porque faz as pessoas pensarem que participam do que há de mais belo no mundo. Integram um ideal, uma ideia de mundo. Ao se olharem no espelho, enxergam algo belo e não o fascismo que todos dizem que é ruim. Entendem, por isso, que a postura que adotam não é fascista.

Isso está a ocorrer com muitos brasileiros que defendem o combate à corrupção a qualquer custo. O ideal é belo, mas se para atendê-lo precisam pisotear a Constituição e os direitos e garantias individuais, assim o fazem. Esquecem os horrores que os defensores de belas ideias praticaram. Tornam-se fascistas sem nem mesmo saber.

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