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Marcelo Harger

Opinião: Deu Bobeira

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Deu Bobeira”

Nasci numa cidade pacata e ordeira. A cidade era tão tranquila que as pessoas podiam esquecer a chave no contato do carro, que nada acontecia. As crianças jogavam futebol e vôlei na rua. Colocavam pedras para fazer o gol e tiravam quando os carros passavam. Outras vezes a brincadeira era na praça. Tudo isso era normal.

Certa vez, no entanto, um carro foi roubado porque o motorista esquecera a chave. O que se disse? Deu bobeira. Quem esquece a chave no contato do carro só pode ter o carro roubado. A partir daí ninguém mais esqueceu.

Passado algum tempo uma criança foi atropelada ao brincar na rua e outra levada por um desconhecido ao brincar no parque. Todos lamentaram as tragédias, mas o que se disse a respeito? Os pais deram bobeira. Criança não pode brincar sozinha na rua. Tampouco em parques. As crianças começaram a se divertir dentro de seus apartamentos e casas e as novas edificações passaram sempre a contar com playground para proteger as crianças.

Apesar dessas mudanças a cidade ainda era considerada uma cidade calma e boa de viver. As casas tinham os muros baixos e não precisavam de alarmes. As pessoas podiam caminhar de noite nas calçadas sem preocupação.

Uma casa, no entanto, foi assaltada. O ladrão não encontrou resistência. Foi fácil superar o muro e adentrar a residência, pois não havia alarme. O que se disse a respeito? Deu bobeira. Casa sem algum tipo de proteção é um convite aos ladrões. Os moradores passaram a equipar as casas com grades, alarmes e a contratar empresas de vigilância para cuidar de seu patrimônio. Outros preferiram morar em apartamentos por questões de segurança.

Um homem foi assaltado ao caminhar na rua durante a noite. Os ladrões o espancaram para roubar o dinheiro. A violência causou repúdio aos demais moradores. Apesar disso disseram: deu bobeira. Não se pode andar sozinho no meio da noite.

A cidade, no entanto, era uma cidade tranquila. As pessoas podiam andar de carro durante a madrugada e parar nos sinaleiros sem problema. Sacavam o seu dinheiro nos bancos sem preocupação. Praticamente não havia assaltos.

Um dia, no entanto, uma pessoa teve o seu carro roubado. Havia parado no sinaleiro durante a madrugada e foi rendida pelo assaltante. Um cidadão foi roubado e sequestrado ao sair do caixa eletrônico no início da noite. As pessoas se preocuparam, mas disseram: deu bobeira. Ninguém para no sinaleiro durante a madrugada ou pega dinheiro no caixa eletrônico. É pedir para ser assaltado.

Nos dias de hoje as crianças não brincam nas ruas nem nos parques. Os carros e casas têm alarmes. Os muros baixos foram substituídos por grades de ferro. Ninguém caminha sozinho durante a noite. Parar em sinaleiros durante a madrugada ou pegar dinheiro em caixa eletrônico é algo impensável. Apesar disso todos insistem em dizer que é uma cidade calma.

Os cidadãos não percebem a diferença entre a calma de hoje e a de outrora. Insistem em afirmar que as vítimas deram bobeira. Não percebem que é direito de todos “dar bobeira” sem ser assaltado ou agredido por isso. Perderam a capacidade de se indignar e com isso “banalizaram o mal”. Deram bobeira.

Colunista do Por Dentro de Minas. Marcelo Harger, advogado, escritor, membro da Academia Joinvilense de letras, mestre e doutor em direito público.

Marcelo Harger

Opinião: Mentiras

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Diferenças Culturais”

A mentira tem perna curta. Errado. A perna é enorme. Quanto mais se mente, maior a perna. E como o único modo de sustentar a mentira é mentindo cada vez mais, o número de pernas aumenta. Surgem verdadeiras mentiras polvo. Oito pernas é pouco. São verdadeiras centopeias com pernas enormes. Talvez o melhor seja imaginar um híbrido, uma centopeia com cem pernas de polvo.

Coordenar a passada de cem pernas é extremamente difícil. Como evitar que uma se enrosque na outra? Como manter a cadência do caminhar? É difícil, pra não dizer impossível. Somente a centopeia de verdade consegue, mas apenas tem êxito por ser criação divina. Os humanos jamais.

Há quem minta para conquistar. Uns pra esconder. Há aqueles que querem fugir da monotonia e aqueles que o fazem pelo simples prazer de enganar. Outros acham que somente podem conseguir o que querem por intermédio da mentira. Finalmente há os que querem esquecer. Mentem para apagar os males que a vida lhes trouxe.

As conquistas obtidas pela mentira são fugazes, pois “quem sobe se arrastando perde, na indecência do gesto, o direito às alturas”. Os que mentem pra esconder vivem com o medo de serem descobertos. Passam a vida inteira em vigília, imaginando em palavras ou olhares indícios de terem sido descobertos.

Os que querem fugir da monotonia não percebem como são ingênuos. Uma mentira muitas vezes repetida não se torna verdade. Vivem uma ilusão e sofrem internamente por isso. Usam o que não fizeram como pretexto para nada fazerem.

Os que sentem prazer em enganar são doentes. A mentira não é apenas uma verdade que se esqueceu de acontecer. É mais do que isso. Corrói a alma de quem engana e do enganado. Deixa um rastro de dor por onde passa.

Aqueles que mentem para atingir seus objetivos e obter vantagens perdem suas conquistas com a verdade. Ninguém engana a todos durante todo o tempo. São conquistas fugazes, que atraem a ira daquele que foi enganado. Com a descoberta perde-se a vantagem e se ganha um inimigo.

Os que mentem para esquecer jamais esquecem de verdade. É impossível apagar a trama da própria vida e os sentimentos que os infortúnios deixaram. Avivam a dor cada vez que falseiam a própria história.

Há, contudo, um mal que todas as espécies de mentira causam: abalar a confiança do homem em seu semelhante. Esse é o maior de todos os males. A crise ética criada pela profusão de mentiras traz uma crise de confiança no próprio ser humano. O homem moderno pressupõe que o seu semelhante mente e reage “de acordo” mentindo também. Pensa que não é errado enganar o enganador e perpetua a cadeia.

É necessário quebrar o ciclo com a verdade. Primeiro dizendo as verdades mais difíceis, aquelas que escandalizam. O mais difícil sempre deve vir primeiro. Depois dessa barreira tudo fica fácil e passa a ser possível viver na verdade diariamente. Somente vivenciando a verdade é que se pode andar com a cabeça ereta. O caminhar pode ser árduo, mas as conquistas serão duradouras e trarão a marca da liberdade.

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Marcelo Harger

Opinião: Maturidade

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Maturidade”

A idade traz experiência. É verdade. Traz também “experiências” que se incorporam ao nosso inconsciente como pequeninos softwares. Surgida uma situação similar àquela que já vivenciamos, o programa tem início. Lembramos-nos dos momentos bons que vivenciamos como se estivéssemos revivendo os momentos passados. Chegamos a ouvir sons, sentir gostos e cheiros.

O problema é que esses pequenos softwares não trazem apenas coisas boas. Trazem também momentos tristes e lembranças ruins. Não é possível desligá-los. Nem mesmo sabemos com exatidão o que os faz funcionar. Pode ser um cheiro, uma música, um lugar, uma pessoa, um gesto, um sorriso, uma paisagem ou um quadro. Normalmente são coisas que não ocasionam perigo, mas por alguma razão servem de detonadores de bombas emocionais que arrasam o nosso coração.

Trazem para o presente a tristeza, a angústia e o medo sentidos no passado. Voltam com força total e de maneira irracional acabam por motivar as nossas ações. É o passado comandando o presente e condicionando o futuro.

Infelizmente não somos computadores. Não é possível formatar o HD e implantar novamente todo o sistema operacional. Temos que aprender a conviver com esses programinhas mal intencionados e procurar utilizá-los a nosso favor. As lembranças tristes e ruins servem de alerta para não repetirmos os erros passados. Apenas precisamos retirar o automatismo que esses softwares implantam em nossas condutas. Precisamos temperar a força do sentimento com o poder da razão e utilizar ambos para fazer as nossas escolhas.

Essa é a grande mágica de envelhecer. Lentamente passamos a aprender a usar a informática da vida. Passamos a identificar os softwares que iniciam automaticamente e instalamos outro programa. Ele não apaga os demais. Apenas impede que comandem automaticamente nossas ações. Eles passam a piscar na tela do “nosso computador” alertando para situações potenciais de perigo. O novo software passa a exigir um comando do operador para que os demais entrem em funcionamento. Infelizmente ele não se encontra nas prateleiras para ser adquirido e tem um fornecedor exclusivo: o tempo. Ele se chama maturidade.

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Marcelo Harger

Opinião: Dúvidas

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Dúvidas”

Antigamente as possibilidades de escolha eram menores. A profissão a ser seguida, quando o filho fosse homem era a do pai. As mulheres seriam donas de casa. Casar era uma obrigação, e a escolha do parceiro ideal era feita pela família. Havendo uma única opção o sofrimento causado pela dúvida inexistia. Inexistia também a culpa por escolher errado e a responsabilidade pelos próprios atos.

O mundo moderno trouxe uma maior liberdade para o ser humano. A quantidade de opções que temos em nossa vida torna o ato de decidir cada vez mais difícil. São tantas as opções que muitas vezes estacamos diante das escolhas mais básicas. Até mesmo comprar uma calça jeans pode tornar-se um sacrifício diante de tantas marcas e modelos.

A quantidade de opções ocorre também em relação às coisas mais sérias. Que profissão seguir? Casar, permanecer solteiro ou em união estável? É muito difícil que alguém tenha completa certeza quando faz escolhas desse tipo e o excesso de opções causa angústias.

É natural que isso ocorra, pois como ensinava Baltazar Gracián em a “Arte da Prudência”, é perigoso fazer algo de que a própria prudência duvida. Indagava, ainda, como poderia dar certo aquilo que, logo depois de pensado, já desperta receios? E concluía afirmando que o mais seguro seria nada fazer, porque os maus prognósticos normalmente se confirmam.

Embora esses conselhos devam ser respeitados, jamais poderão ser aceitos como uma verdade inatacável em todas as situações. Ser prudente não é o mesmo que ser omisso. Deixar de agir quando a ação era obrigatória pode causar mais prejuízos do que agir equivocadamente.

É necessário ter em mente que as dúvidas são inerentes aos seres humanos. Não há quem nunca tenha hesitado diante de uma decisão importante a ser tomada. Não é possível saber de antemão o resultado de cada escolha. É possível, no entanto, utilizar uma regra básica da filosofia chinesa para nos ajudar a escolher. O melhor curso de ação é sempre aquele que nos deixa sem culpa nem arrependimento. Agindo desse modo, mesmo quando as coisas derem errado, será possível dormir em paz.

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