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Marcelo Harger

Opinião: O que vier virá

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “O que vier virá”

Cheguei praticamente na metade de minha vida. Esse é um momento no qual diversas reflexões me assolam. Fui pai tardiamente. Tenho dois filhos pequenos e, se quiser vê-los encaminhados, preciso chegar aos setenta em boa forma.

Para poder brincar com os netos creio que tenho que estar em forma aos noventa. É uma tarefa extremamente difícil para quem nunca se cuidou e está com sobrepeso.

Como diz o ditado, “antes tarde do que nunca”, melhorei a qualidade da alimentação e passei a fazer exercícios físicos diários. Ter a família como meta justifica esses “sofrimentos”, antes impensáveis, e até os torna agradáveis.

Outra preocupação é com a morte. Observo que pessoas de minha idade falecem. Sei que isso pode parecer óbvio, pois todos morrem um dia. O falecimento de pessoas conhecidas, e que tem a minha idade, no entanto, traz a morte para perto.

Passou a ser algo palpável, mais próximo. Enfarto e AVC entraram nas conversas do cotidiano. Como deixar a família resguardada em caso de minha ausência também tem sido preocupação presente nas conversas com os amigos.

Também leio textos que tratam do tema da morte. De um modo geral os textos dizem que precisamos ser bons. Os ateus dizem que nada existe após a morte e, por isso, precisamos ser bons aqui e agora. Os religiosos afirmam que após a morte existe a vida eterna ou que reencarnamos. Esses têm a clara noção de que “passamos dessa para a melhor”, como diz o ditado popular.

Caí na asneira, no entanto, de ler Luiz Felipe Pondé, e ele faz uma indagação exasperadora para quem tem as mesmas indagações que eu.

Segundo ele, pode haver vida após a morte e essa vida ser péssima. Como ninguém voltou para contar como é, essa é uma possibilidade plausível. É isso que dá ler filosofia. O homem não resolveu o meu problema e trouxe um novo: a possibilidade de não apenas morrer, mas de, após a morte, viver uma vida horrível, da qual não se escapa nem mesmo morrendo, porque o indivíduo já morreu. Dependendo das pessoas com quem tivermos que conviver, a vida eterna poderá ser uma agonia sem fim.

Depois de ler isso, deixei minhas preocupações “pra lá”. Vou fazer o que posso para ter uma velhice saudável, e estar rodeado das pessoas que amo no momento da minha morte. O que vier inevitavelmente virá e nada poderei fazer quanto a isso.

Colunista do Por Dentro de Minas. Marcelo Harger, advogado, escritor, membro da Academia Joinvilense de letras, mestre e doutor em direito público.

Marcelo Harger

Opinião: Mentiras

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Diferenças Culturais”

A mentira tem perna curta. Errado. A perna é enorme. Quanto mais se mente, maior a perna. E como o único modo de sustentar a mentira é mentindo cada vez mais, o número de pernas aumenta. Surgem verdadeiras mentiras polvo. Oito pernas é pouco. São verdadeiras centopeias com pernas enormes. Talvez o melhor seja imaginar um híbrido, uma centopeia com cem pernas de polvo.

Coordenar a passada de cem pernas é extremamente difícil. Como evitar que uma se enrosque na outra? Como manter a cadência do caminhar? É difícil, pra não dizer impossível. Somente a centopeia de verdade consegue, mas apenas tem êxito por ser criação divina. Os humanos jamais.

Há quem minta para conquistar. Uns pra esconder. Há aqueles que querem fugir da monotonia e aqueles que o fazem pelo simples prazer de enganar. Outros acham que somente podem conseguir o que querem por intermédio da mentira. Finalmente há os que querem esquecer. Mentem para apagar os males que a vida lhes trouxe.

As conquistas obtidas pela mentira são fugazes, pois “quem sobe se arrastando perde, na indecência do gesto, o direito às alturas”. Os que mentem pra esconder vivem com o medo de serem descobertos. Passam a vida inteira em vigília, imaginando em palavras ou olhares indícios de terem sido descobertos.

Os que querem fugir da monotonia não percebem como são ingênuos. Uma mentira muitas vezes repetida não se torna verdade. Vivem uma ilusão e sofrem internamente por isso. Usam o que não fizeram como pretexto para nada fazerem.

Os que sentem prazer em enganar são doentes. A mentira não é apenas uma verdade que se esqueceu de acontecer. É mais do que isso. Corrói a alma de quem engana e do enganado. Deixa um rastro de dor por onde passa.

Aqueles que mentem para atingir seus objetivos e obter vantagens perdem suas conquistas com a verdade. Ninguém engana a todos durante todo o tempo. São conquistas fugazes, que atraem a ira daquele que foi enganado. Com a descoberta perde-se a vantagem e se ganha um inimigo.

Os que mentem para esquecer jamais esquecem de verdade. É impossível apagar a trama da própria vida e os sentimentos que os infortúnios deixaram. Avivam a dor cada vez que falseiam a própria história.

Há, contudo, um mal que todas as espécies de mentira causam: abalar a confiança do homem em seu semelhante. Esse é o maior de todos os males. A crise ética criada pela profusão de mentiras traz uma crise de confiança no próprio ser humano. O homem moderno pressupõe que o seu semelhante mente e reage “de acordo” mentindo também. Pensa que não é errado enganar o enganador e perpetua a cadeia.

É necessário quebrar o ciclo com a verdade. Primeiro dizendo as verdades mais difíceis, aquelas que escandalizam. O mais difícil sempre deve vir primeiro. Depois dessa barreira tudo fica fácil e passa a ser possível viver na verdade diariamente. Somente vivenciando a verdade é que se pode andar com a cabeça ereta. O caminhar pode ser árduo, mas as conquistas serão duradouras e trarão a marca da liberdade.

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Marcelo Harger

Opinião: Maturidade

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Maturidade”

A idade traz experiência. É verdade. Traz também “experiências” que se incorporam ao nosso inconsciente como pequeninos softwares. Surgida uma situação similar àquela que já vivenciamos, o programa tem início. Lembramos-nos dos momentos bons que vivenciamos como se estivéssemos revivendo os momentos passados. Chegamos a ouvir sons, sentir gostos e cheiros.

O problema é que esses pequenos softwares não trazem apenas coisas boas. Trazem também momentos tristes e lembranças ruins. Não é possível desligá-los. Nem mesmo sabemos com exatidão o que os faz funcionar. Pode ser um cheiro, uma música, um lugar, uma pessoa, um gesto, um sorriso, uma paisagem ou um quadro. Normalmente são coisas que não ocasionam perigo, mas por alguma razão servem de detonadores de bombas emocionais que arrasam o nosso coração.

Trazem para o presente a tristeza, a angústia e o medo sentidos no passado. Voltam com força total e de maneira irracional acabam por motivar as nossas ações. É o passado comandando o presente e condicionando o futuro.

Infelizmente não somos computadores. Não é possível formatar o HD e implantar novamente todo o sistema operacional. Temos que aprender a conviver com esses programinhas mal intencionados e procurar utilizá-los a nosso favor. As lembranças tristes e ruins servem de alerta para não repetirmos os erros passados. Apenas precisamos retirar o automatismo que esses softwares implantam em nossas condutas. Precisamos temperar a força do sentimento com o poder da razão e utilizar ambos para fazer as nossas escolhas.

Essa é a grande mágica de envelhecer. Lentamente passamos a aprender a usar a informática da vida. Passamos a identificar os softwares que iniciam automaticamente e instalamos outro programa. Ele não apaga os demais. Apenas impede que comandem automaticamente nossas ações. Eles passam a piscar na tela do “nosso computador” alertando para situações potenciais de perigo. O novo software passa a exigir um comando do operador para que os demais entrem em funcionamento. Infelizmente ele não se encontra nas prateleiras para ser adquirido e tem um fornecedor exclusivo: o tempo. Ele se chama maturidade.

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Marcelo Harger

Opinião: Dúvidas

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Dúvidas”

Antigamente as possibilidades de escolha eram menores. A profissão a ser seguida, quando o filho fosse homem era a do pai. As mulheres seriam donas de casa. Casar era uma obrigação, e a escolha do parceiro ideal era feita pela família. Havendo uma única opção o sofrimento causado pela dúvida inexistia. Inexistia também a culpa por escolher errado e a responsabilidade pelos próprios atos.

O mundo moderno trouxe uma maior liberdade para o ser humano. A quantidade de opções que temos em nossa vida torna o ato de decidir cada vez mais difícil. São tantas as opções que muitas vezes estacamos diante das escolhas mais básicas. Até mesmo comprar uma calça jeans pode tornar-se um sacrifício diante de tantas marcas e modelos.

A quantidade de opções ocorre também em relação às coisas mais sérias. Que profissão seguir? Casar, permanecer solteiro ou em união estável? É muito difícil que alguém tenha completa certeza quando faz escolhas desse tipo e o excesso de opções causa angústias.

É natural que isso ocorra, pois como ensinava Baltazar Gracián em a “Arte da Prudência”, é perigoso fazer algo de que a própria prudência duvida. Indagava, ainda, como poderia dar certo aquilo que, logo depois de pensado, já desperta receios? E concluía afirmando que o mais seguro seria nada fazer, porque os maus prognósticos normalmente se confirmam.

Embora esses conselhos devam ser respeitados, jamais poderão ser aceitos como uma verdade inatacável em todas as situações. Ser prudente não é o mesmo que ser omisso. Deixar de agir quando a ação era obrigatória pode causar mais prejuízos do que agir equivocadamente.

É necessário ter em mente que as dúvidas são inerentes aos seres humanos. Não há quem nunca tenha hesitado diante de uma decisão importante a ser tomada. Não é possível saber de antemão o resultado de cada escolha. É possível, no entanto, utilizar uma regra básica da filosofia chinesa para nos ajudar a escolher. O melhor curso de ação é sempre aquele que nos deixa sem culpa nem arrependimento. Agindo desse modo, mesmo quando as coisas derem errado, será possível dormir em paz.

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