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Marcelo Harger

Opinião: Jurassic Park

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Jurassic Park”

Levei as crianças para passear na pacata cidade de Pomerode, próximaa Joinville. Passeio ótimo para um sábado ensolarado. Visitamos o jardim zoológico aonde vimos leões, tigres, zebras, ursos, hipopótamos e outros animais.

Martina arregalava os olhos para tudo e Pedro queria ver os pinguins. Saindo do zoológico visitamos o maior ovo e a maior árvore de páscoa na “Osterfest”, festa municipal comemorativa da páscoa.

O ponto alto, no entanto, foi o parque dos dinossauros. Ponto alto, por várias razões. Em primeiro lugar porque as crianças adoraram. Em segundo lugar porque havia brinquedos daqueles nos quais as crianças sobem, e ficam andando entre obstáculos nas alturas. Pedro foi logo subindo.

A Martina, de dois anos, não ficou atrás. Quando percebi já havia subido. Como todos sabem, não basta ser pai, tem que participar. Lá fui eu subir no tal brinquedo para cuidar da pequena, que dava gritinhos de felicidade.

Eu segurava os “ai meu deus” e “minha nossa senhora” tentando acompanhar a pequenina. Embora a placa dissesse que os adultos podiam se divertir também, o brinquedo não era feito para gente grande. Era preciso andar curvado ou engatinhar. Tive dor nas costas, no ciático e até “dor de cabelo”. Há quem diga que cabelo não dói. Para mim não doía até andar naquele brinquedo. Quem nunca sentiu dor de cabelo é porque nunca se sentiu dolorido de verdade.

Brinquei com a pequena durante os trinta minutos mais longos de minha vida. Quando minha esposa fez o sinal de “vamos embora” surgiu o último problema: como descer daquela geringonça. O melhor caminho foi um escorregador de tubo verde e cheio de voltinhas. Cheguei ao chão desconjuntado, mas vivo. Isso é o que importa. Na saída do parque, ao ver as estátuas de dinossauros lembrei-me do filme Jurassic Park. Os atores faziam cara de corajosos ao enfrentar os bichos. Queria vê-los em Pomerode. Tenho certeza de que a cara seria de desespero.

Colunista do Por Dentro de Minas. Marcelo Harger, advogado, escritor, membro da Academia Joinvilense de letras, mestre e doutor em direito público.

Marcelo Harger

Opinião: Ano Novo

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Ano Novo”

Os finais de todos os anos são sempre parecidos. Parece que será o último de nossas vidas. Uma correria infernal. Aparentemente o capeta está solto no dia 31. Inicialmente olhamos as resoluções que fizemos para o ano que se encerra. Algumas são clássicas. Há quem coloque em suas resoluções fazer regime, parar de fumar e beber. É o que faz um grande amigo meu, que fica feliz ao ver que atendeu às próprias expectativas. Afirma sempre que cumpriu as suas resoluções, pois durante o ano que passou fez regime diversas vezes e também parou de fumar e beber outras tantas.

Resoluções de ano novo são assim. Refletem as nossas boas intenções para o ano que se aproxima. É como se a cada período de 365 dias estivéssemos prontos para um recomeço. Recomeçar efetivamente depende de cada um.

Acreditar que tudo irá mudar pela simples virada do ano é ingenuidade. Não é o ano que precisa mudar. Somos nós. Para termos um ano novo efetivo temos que merecê-lo. O ano novo verdadeiro está dentro de cada um e não em uma data específica. Não é preciso esperar o calendário para operar uma mudança de atitude. A data serve como um símbolo e nada mais. Cada dia que passa podemos dar início a um “novo ano” em nosso calendário interno.

Não é preciso uma lista para deixar mofando em uma gaveta. Tampouco adianta chorar pelas besteiras praticadas no ano que passou. É necessário seguir adiante. Certa vez uma tia-avó sábia, deu uma grande lição aos seus sobrinhos diante das adversidades. Dizia ela que a vida é como um livro. O passado são as páginas que já lemos. Aquele trecho da história já conhecemos, e não adianta voltar atrás porque não será mudado. Devemos seguir em frente, lendo o livro.

Lição importante, mas que merece um pequeno reparo. Ela vale para o passado. Não podemos mudar as páginas já escritas, mas em relação àquelas ainda não lidas, não somos meros espectadores. Não nos cabe o papel de ficar lendo mansamente a história. Na verdade somos os escritores. O futuro é uma página em branco. Cada um pode fazer o que quiser com ela. Podemos utilizar régua, esquadro e compasso e trazer coordenadas precisas para o nosso futuro, ou podemos desenhar a mão livre e continuar a utilizar constantemente a borracha do arrependimento.

Podemos escrever uma história de sucesso, amor e amizade, mas também uma verdadeira história de terror. Somos responsáveis pelo enredo, pois cada um tem a vida que escolheu viver. É certo que há dificuldades que não são criadas por nós, mas o modo de enfrentá-las depende de cada um. A boa e a má sorte constantemente se alternam na vida humana. Ninguém tem sempre a felicidade, tampouco viverá sempre na adversidade.

Certa vez um imperador pediu a um sábio duas frases lacradas em um envelope. A primeira para que ele pudesse ler no momento mais triste de sua vida e a segunda no momento mais feliz. Ao se deparar com o dia mais triste, abriu o envelope e leu a frase que encomendara: isso passará. No momento mais feliz abriu o segundo envelope e surpreendeu-se ao ler: isso também passará.

Parábola simples que retrata uma maneira sábia de encarar a vida. Ensinamentos como esses são repetidos nas canções de ano novo. Há uma que diz: marcas do que se foi, sonhos que vamos ter, como todo dia nasce novo em cada amanhecer. E outra que serve para encerrar definitivamente o ano e o artigo: adeus ano velho e um feliz ano novo a todos.

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Marcelo Harger

Opinião: Febeapá

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Febeapá”

Sérgio Porto era o verdadeiro nome de um personagem que se tornou célebre no Brasil: Stanislaw Ponte-preta. Sob o pseudônimo citado o autor escreveu por vários anos, especialmente durante o regime militar, uma coluna, posteriormente transformada em livro, que se intitulava Febeapá. Febeapá era a abreviação de Festival de besteiras que assolam o país.

Noticiava em sua coluna situações que pareciam verdadeiras anedotas, mas que realmente haviam ocorrido. Relatava que em certa cidade notória pelos roseirais, o Município decidiu acabar com as formigas e para isso decidiu pagar uma soma em dinheiro por lata cheia de formigas que a ele fosse trazida. Não é preciso dizer que pessoas de cidades situadas a mais de cem quilômetros do local acabaram trazendo formigas para a cidade. Outra notícia foi que um prefeito do interior da Bahia declarou em um jornal que metade da câmara de vereadores era composta por ladrões. Diante da reação dos vereadores, no dia seguinte o prefeito ratificou a declaração dizendo que havia uma metade da câmara que não era composta de ladrões. Ninguém percebeu que o prefeito havia reafirmado o que havia dito anteriormente e as coisas se acalmaram.

Contava também que em uma cidade do interior o prefeito havia nomeado o seu cavalo como servidor público e que certo juiz ao ser chamado equivocadamente em um ofício de meretríssimo respondeu que meretíssimo vem de mérito e meretríssimo vem de coisa sem mérito algum.

Noticiava ainda os descalabros cometidos pela polícia. Havia a história de que os agentes do temido DOPS interromperam uma peça de teatro para prender o subversivo autor que se chamava Sófocles. Outra interessante foi uma nota expedida pela polícia do estado de São Paulo. Segundo a referida nota a vítima havia sido encontrada às margens de um rio, retalhada em quatro pedaços e dentro de um saco de aniagem atado a uma pesada pedra. A nota concluía que aparentemente estava descartada a hipótese de suicídio.

A lembrança do Stanislaw é importante, porque o Febeapá continua. No sul do país, por exemplo, foi feita a entrega da reforma no Centro de Eventos da cidade turística de Balneário Camboriú, há um ano e meio, mas as obras ainda não terminaram.

Já no oeste, lá por Rondônia, temos a notícia de um homem que se vestiu de mulher para fazer o teste do Detran no lugar de sua mãe. Alegou estar triste ao ver as tentativas frustradas dela nos testes de direção, e queria demonstrar seu amor lhe presenteando com a carteira de motorista surpresa. Surpresa foi a do policial ao detê-lo…

Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, faleceu em 29/09/68. Passados cinquenta anos da sua morte o Febeapá continua. Resta saber quando o brasileiro dirá: CANSEI.

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Marcelo Harger

Big Brother – Pode ter alguém espiando por aqui

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Big Brother – Pode ter alguém espiando por aqui”

O tradicional programa de televisão “Big Brother” está recomeçando. Mas poucos já se questionaram acerca da origem do nome da atração televisiva, que quer dizer “Grande Irmão”. Trata-se de um termo extraído do livro “1984”, do autor inglês George Orwell. A história, escrita na primeira metade do século passado, procurar antever a vida dos seres humanos no ano de 1984. O retrato é desesperador. A sociedade seria governada pelo grande irmão que a conduziria a ferro e fogo, como o líder “do partido”.

As pessoas viveriam amedrontadas, pois os indivíduos sofreriam a fiscalização da polícia do pensamento, que controlaria os cidadãos por intermédio de um aparelho, misto de câmera e televisão, existente em todas as residências. As crianças, incentivadas pela escola, fiscalizariam os próprios pais. Os jornais diariamente publicariam a foto de um herói infantil, que teria denunciado seus genitores. A família tornar-se-ia uma extensão do órgão fiscalizador máximo: a polícia do pensamento.

Punir-se-ia o pensar. Aquele que pensasse diferente das ideias transmitidas diariamente pelo partido seria punido por cometer um ideocrime ou crimideia. A punição seria não somente o “sumiço” da pessoa, mas também o seu completo desaparecimento da história. Não haveria uma história fixa, pois seria remodelada constantemente. Apagar-se-iam quaisquer registros de personagens e fatos que não correspondessem com a história oficial. Isso seria feito pelo “Ministério da verdade”, que, na realidade, criaria a verdade de acordo com os desígnios do grande irmão.

Haveria um Ministério destinado exclusivamente a reescrever o idioma. As palavras consideradas “subversivas” seriam retiradas do léxico para impedir que, no futuro, as pessoas cometessem os crimes de pensamento. Não haveria como expressar os sentimentos de frustração e revolta se não houvesse palavras para tanto. O número de vocábulos de utilização permitida tornar-se-ia menor a cada ano. A propriedade privada não existiria. Enquanto membros do partido possuiriam tudo. Oficialmente a mansão na qual morariam e o carro que utilizariam seriam do povo. Do mesmo modo se justificariam os privilégios, que apenas serviriam para que os membros do partido pudessem desempenhar suas funções. Tudo em nome do bem comum.

Ao que parece, é a essa história que o termo “Big Brother” remete. O telespectador é convidado a atuar como o “Grande Irmão”, que tudo sabe e tudo vê e pode punir os participantes por seus atos e pensamentos, expulsando-os da casa.

A antecipação do momento tecnológico atual, feita por George Orwell, é impressionante. O uso de equipamentos da vida moderna, como cartões de crédito e celulares, permite que se saibam os hábitos de consumo e os locais por onde cada cidadão esteve. O avanço dos meios de comunicação e locomoção criou um padrão global de conduta e pensamento, intitulado globalização, que exclui como párias aqueles que ousam discordar do status quo.

Criou-se também um sistema espontâneo de redução do idioma: a linguagem dos internautas. “Um beijo” passa a ser “bj”, saudades passa a ser “sds”, distanciando o vocábulo do sentimento que visa expressar. O conhecimento humano passou a ser armazenado na internet, que interligou os computadores do mundo, e é a única fonte de consulta e pesquisa utilizada pelos jovens. Diante desse panorama, reescrever a história torna-se cada vez mais fácil. Não seriam necessários os milhares de funcionários do Ministério da Verdade para reescrever os livros. Um software adequado resolveria o problema. As odiosas telas, retratadas por Orwell, foram adquiridas voluntariamente pelos cidadãos sob a forma de computadores e televisões.

Diante dessas constatações, ao finalizar esse artigo, olhando para a tela do computador e a webcam, só resta ao articulista torcer para que realmente o telespectador seja o “Grande Irmão”. Se não for essa a razão do nome do programa, é porque pode ter alguém espiando por aqui.

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