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Marcelo Harger

Opinião: Violência inclusiva

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Violência inclusiva”

Tempos atrás cometi uma gafe daquelas. Fiz uma viagem aos Estados Unidos, e planejava encontrar um grande amigo que lá reside. Pretendia ir à Nova Iorque, e logo percebi que seria fácil visitá-lo, pois ele reside em Boston. Passagens compradas e tudo o mais, liguei para o amigo para combinar. Somente nesse momento me dei conta que ele mora na cidade de Chicago. Fiz uma confusão escatológica.

Americano não entende como brasileiro confunde Chicago com Boston, e foi difícil explicar o equívoco. Apesar de tudo, a intenção de conhecer a cidade permanecia, mas fui surpreendido pela notícia da bomba que lá explodiu.

Obviamente o roteiro mudou, mas não consegui deixar de pensar no assunto. Penso nele sempre que leio acerca de qualquer atentado terrorista. Diversas pessoas feridas ou mortas. Dor estampada em todo o lado. Adultos e crianças, jovens e velhos, homens e mulheres, negros e brancos, todos foram atingidos sem qualquer distinção.

Trata-se de violência inclusiva. É dirigida a todos com igual proporção. Não importa se são pessoas boas ou más, ricas ou pobres, americanas ou estrangeiras, cristãs ou muçulmanas. Basta passar na frente daquilo que foi concebido como um alvo passível de causar o maior número de vítimas, que todos têm o direito de serem trucidados pelo ato tresloucado. Não há possibilidade de argumentar ou se defender. É selvageria sem direção.

Os autores do atentado certamente têm alguma desculpa para a prática de seus atos. Pode ser o ataque ao imperialismo ianque, ou ao governo americano. Provavelmente se consideram guerreiros que lutam romanticamente por um ideal.

A verdade, no entanto, é que não há qualquer justificativa para que pessoas inocentes sejam assassinadas. Guerreiros não matam pessoas indefesas, e não existe romantismo em homicídio. Somente mentes doentes conseguem justificar o assassinato dessa maneira.

Parafraseando o escritor inglês Gilbert Keith Chesterton, pode-se dizer que todo o homem que está disposto a matar ou morrer por uma ideia é porque dela não tem uma ideia muito clara.

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Marcelo Harger

Opinião: Manspreading

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Manspreading”

Madri está proibindo que os homens sejam espaçosos no transporte coletivo. O termo aem Inglês é “manspreading”. Foi difícil compreender o que isso significava até que vi a foto do cartaz da proibição: um homem sentado com as pernas abertas e um “X”. O “X” não estava colocado “naquele” lugar. Estava colocado na parte superior do cartaz. Pelo menos isso. Essa postura corporal seria ofensiva às mulheres.

Descobri que há também o “mansplaining” e o “manterrupting”. O primeiro consiste em explicar a uma mulher, de uma maneira excessivamente didática, fatos óbvios ou já conhecidos. O segundo consiste em interromper constantemente uma mulher ao falar.

As feministas alegam que há manifestações normalmente invisíveis, mas com potencial opressivo contra as mulheres. Segundo elas o machismo mora nesses pequenos detalhes. Seriam formas de sexismo cotidiano a exemplificar o privilégio masculino.

As feministas que me perdoem pelo que vou passar a escrever agora. Peço desculpas antecipadas, porque talvez esteja sendo machista sem saber, mas essas palavras são um despropósito. Os homens sentam-se de pernas abertas porque tem no meio delas algo que as mulheres não possuem. Sentar de pernas fechadas gera desconforto. Não se quer ocupar o espaço alheio. O que se quer é chegar intacto ao final da viagem.
Explicar demais pode ser gentileza. Pode ser vontade de se fazer entender. Talvez seja chatice, pois, segundo Millôr Fernandes, chato é aquele que explica tudo tintim por tintim e ainda entra em detalhes.

Interromper os outros ao falar talvez represente apenas ansiedade. Pode ser também falta de educação. Quem age desse jeito, no entanto, não se limita às mulheres. E, arriscando-me a apanhar das feministas, creio a quantidade de mulheres que incorrem nessas duas últimas práticas é igual ou superior à dos homens.

A razão para esses comentários não é espezinhar. É demonstrar inquietação porque coisas triviais são tratadas com importância desmedida. Vejo chegar o dia em que o cavalheiresco gesto de abrir a porta do carro para uma dama entrar se torne uma ofensa. Será a vez do “mansopendooring”.

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Marcelo Harger

Opinião: Tex e o direito

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Tex e o direito”

Tex Willer é o personagem central de quadrinhos de faroeste criados pelo italiano Sergio Bonelli. Em várias histórias, o personagem, que é um ranger do Texas, enfrenta “figurões” locais que oprimem a população.

Sempre descobre com facilidade os criminosos. Normalmente encontra um personagem secundário como, por exemplo, um bêbado sendo expulso de um “saloon”, que sabe quem são os bandidos e como operam. O “bebum” conta tudo em troca de uma garrafa de uísque.

A partir daí, o ranger, como técnica de investigação, sai distribuindo tiros e sopapos até que os bandidos confessem. Ele incrivelmente acerta todas as vezes. Nunca bate ou atira nas pessoas erradas. As informações que recebe são sempre corretas, e utiliza critérios próprios para “liberar” algum bandido em troca de auxílio para prender outros. Constantemente pede ao xerife da cidade para “fechar os olhos” para os métodos pouco ortodoxos que utilizará e esse aquiesce.

Menciono os quadrinhos italianos porque atualmente vivemos um momento Tex Willer no direito brasileiro. Qualquer acusado em processos de corrupção é imediatamente preso, embora, como os profissionais do direito sabem, algumas vezes, é preciso espancar a lei para chegar à conclusão de que ela autoriza a prisão.

Como na revista, a população aplaude porque sabe que os presos são culpados. Personagens como o bêbado da história passam a propagar notícias, sem qualquer compromisso com a verdade, e grande parte da população acredita. Bandidos são soltos, com base em critérios subjetivos, por terem colaborado com a acusação.

A lógica seguida é a mesma do herói do faroeste que constantemente afirma em suas histórias não ser possível fazer uma omelete sem quebrar os ovos.

O mundo, no entanto, não é uma história em quadrinhos. A realidade não é tão simples quando um enredo de ficção. Nem sempre bêbados e bandidos contam a verdade. Tampouco a acusação é sempre correta. É por isso que existem leis disciplinando os procedimentos a serem utilizados pelos órgãos estatais de controle. Prender sem respeitá-los é fácil, mas equivale a institucionalizar o faroeste. Mais fácil, ainda, seria distribuir tiros e sopapos. Aumentaria a eficácia e acabaria com a hipocrisia de desvirtuar a lei a pretexto de aplicá-la.

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Marcelo Harger

Opinião: Saidinha

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Saidinha”

Vou tentar escrever sem paixão sobre um tema que desperta as mais profundas delas. Trata-se da negativa de permissão para que o ex-presidente Lula comparecesse ao velório do irmão. Lamento pelo fato de o ex-presidente não poder dar pessoalmente o seu último adeus ao ente querido. Na verdade lamento pelo próprio fato de ver um ex-presidente preso.

Lamento também que o Supremo Tribunal Federal admita a prisão em segunda instância. Em minha opinião técnica ninguém pode ser considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória. É a letra da Constituição. Prender antes do trânsito em julgado é prender alguém que a Constituição considera “não culpado”, ou seja, inocente. Trata-se, no entanto, de decisão que vem sendo aplicada a todos que se encontram na mesma situação. Lula, portanto, não poderia ser beneficiado em detrimento dos demais.

Vou abstrair a questão da correção da condenação. Faço isso porque aquele que diz o que a lei diz no caso concreto é o Poder Judiciário, e se o Judiciário diz que Lula deve estar preso no momento, preso ele deve estar.

Estando preso, obviamente, os seus direitos “diminuem”, pois está preso ora bolas. Isso significa dizer que certamente tem restrições quanto a receber visitas e, mais ainda, quanto a sair do presídio.

A legislação penal autoriza que se dê permissão ao preso, mediante escolta, para sair em caso de falecimento de um irmão. Trata-se de um ato excepcional. Não é, como pode parecer a primeira vista, algo que aconteça todos os dias.

Negar autorização para a saída ou não obtê-la em tempo hábil é corriqueiro. Não se trata de uma simples “saidinha”. A autorização demanda um grande aparato para o transporte, especialmente em um caso como o de Lula, que é um político que desperta paixões. Não é um preso comum. O aparato de segurança exigido é muito maior, seja para evitar uma eventual fuga, seja para protegê-lo de eventuais inimigos. Não identifico ilegalidade na negativa de saída do presídio. Trata-se de decisão previsível.

A discussão que subsiste é se efetivamente Lula deveria estar preso, e sobre esse aspecto, o Poder Judiciário ainda não se manifestou de forma definitiva. Trata-se de uma incongruência gerada pelo entendimento equivocado de nossa Corte Suprema acerca da prisão em segunda instância.

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