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Marcelo Harger

Opinião: Tristeza de pai

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Tristeza de pai”

Ele me olhou com tristeza nos olhos, me deu um forte abraço e disse que nunca havia sentido uma dor tão grande em sua vida. Tenho certeza de que era verdade. Chorava copiosamente, e pude sentir um pouco da dor que o afligia. Foi a dor mais doída que já senti em minha vida. Era a de um pai que acabara de perder o filho.

Há coisas que não deveriam acontecer. Pessoas queridas jamais deveriam morrer. Esse, contudo, é o ciclo da vida. A morte é parte da vida da mesma forma que o entardecer é parte do dia.

Há situações, contudo, como a retratada, em que o ciclo é interrompido de forma a parecer uma grande injustiça divina. Temos em nosso interior a convicção de que os mais velhos devem ir primeiro do que os mais novos, e sempre nos espantamos quando esta ordem é quebrada. É algo inevitável. A dor de perder um pai somente pode ser superada pela dor de perder um filho. Felizmente até hoje não perdi nenhum. Apenas posso imaginar de acordo com as experiências alheias.

Reflito com frequência sobre o tema. Não quero morrer. Apenas faço reflexões porque o dia do meu fim certamente está cada dia mais próximo. Antigamente faleciam os avós dos amigos. Depois de um tempo passaram a falecer os pais dos amigos. Atualmente há amigos que se vão. Acidentalmente caiu-me em mãos um trecho de um livro de Martha Medeiros sobre o tema. Segundo ela, antes de nascermos havia uma ausência de nós mesmos. Depois de nossa morte essa ausência se torna infinita. A vida é um breve intervalo de tempo entre duas ausências. Somente se pode enfrentar a magnitude dessa ausência com o amor. É o amor por aquele ser que se foi que nos serve de sustento. É a alegria de ter podido amar aquela pessoa, no breve espaço de sua existência, que pode servir de consolo. Melhor ter o ente querido em nossas vidas, ainda que por um curto momento, do que a ausência representada por ele nunca ter existido.

São considerações filosóficas que ajudam a me preparar para aquilo que é inevitável. Tento preparar-me para algo em relação ao qual não existe possibilidade alguma de preparação. Faço isso com a sincera impressão de que se puder optar, preferiria ir embora antes dos meus entes queridos. O mais difícil, certamente, seria saber que eles se foram e quem ficou fui eu.

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Marcelo Harger

Opinião: Mulher

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Mulher”

O dia 07 de março tem um significado especial para mim. Foi nesse dia do ano de 2011 que minha vida mudou. Era uma segunda-feira de carnaval e nela tornei-me pai. Meu filho Pedro antecipou em um mês a sua vinda. Assustou a todos, e no meio desse susto assumi uma tarefa para a qual não estava preparado.

O menino chegou chegando. Saiu da barriga da mãe direto para a UTI neonatal. Lamentei ser advogado, profissão da qual sempre me orgulhei. Naquele momento queria ser médico para compreender o que se passava com o pequeno. Foram quinze dias de susto até que ele pudesse ir para o quarto e então para casa.

Tornei-me pai “no susto”, e no susto vim lidando com a paternidade desde então. Li muito sobre como ser um bom pai e como educar as crianças, mas não há nada que nos prepare para o caso concreto. Ser pai é uma experiência muito pessoal.

Pensei que estaria mais preparado para o nascimento de minha filha, Martina, seis anos depois. Mais uma vez enganei-me. As crianças são diferentes umas das outras e não vêm com manual de instruções. Cada dia é um aprendizado diferente e isso é o que mais me fascina na aventura da paternidade.

Vejo meus dois filhos e percebo o quanto são diferentes. Pedro é carinhoso, generoso e sedutor. Martina, cujo significado é pequena guerreira, faz jus ao nome. Tem gênio forte e uma alegria encantadora. Está sempre rindo, batendo palmas e cantando, mas não mexam com ela. Ela sabe o que quer e se defende bem.

Olho para ambos e fico pensando em como Deus é bom. Colocou duas crianças iluminadas em minha vida. Com elas aprendi que posso ser carinhoso, generoso e alegre, sem deixar de ser firme e que posso ser forte sem ser rude. Tornei-me mais paciente e tolerante. Percebi o que é o amor incondicional. Notei que o coração aumenta de tamanho. Achei que ele já estava repleto de amor quando nasceu o Pedro, mas o nascimento da Martina colocou mais amor, ainda, para dentro.

A lição mais forte, no entanto, foi sobre a importância da mulher. Sem a Marcela, minha esposa, nada seria possível. É ela quem com sua força nos torna uma família. Com o seu amor de mãe faz o impossível parecer fácil. É ela quem verdadeiramente molda meus filhos, e eu como pai olho para ela embasbacado e agradecido. Ela merece minhas homenagens e em nome dela homenageio todas as mulheres pelo seu dia.

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Marcelo Harger

Opinião: Violência inclusiva

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Violência inclusiva”

Tempos atrás cometi uma gafe daquelas. Fiz uma viagem aos Estados Unidos, e planejava encontrar um grande amigo que lá reside. Pretendia ir à Nova Iorque, e logo percebi que seria fácil visitá-lo, pois ele reside em Boston. Passagens compradas e tudo o mais, liguei para o amigo para combinar. Somente nesse momento me dei conta que ele mora na cidade de Chicago. Fiz uma confusão escatológica.

Americano não entende como brasileiro confunde Chicago com Boston, e foi difícil explicar o equívoco. Apesar de tudo, a intenção de conhecer a cidade permanecia, mas fui surpreendido pela notícia da bomba que lá explodiu.

Obviamente o roteiro mudou, mas não consegui deixar de pensar no assunto. Penso nele sempre que leio acerca de qualquer atentado terrorista. Diversas pessoas feridas ou mortas. Dor estampada em todo o lado. Adultos e crianças, jovens e velhos, homens e mulheres, negros e brancos, todos foram atingidos sem qualquer distinção.

Trata-se de violência inclusiva. É dirigida a todos com igual proporção. Não importa se são pessoas boas ou más, ricas ou pobres, americanas ou estrangeiras, cristãs ou muçulmanas. Basta passar na frente daquilo que foi concebido como um alvo passível de causar o maior número de vítimas, que todos têm o direito de serem trucidados pelo ato tresloucado. Não há possibilidade de argumentar ou se defender. É selvageria sem direção.

Os autores do atentado certamente têm alguma desculpa para a prática de seus atos. Pode ser o ataque ao imperialismo ianque, ou ao governo americano. Provavelmente se consideram guerreiros que lutam romanticamente por um ideal.

A verdade, no entanto, é que não há qualquer justificativa para que pessoas inocentes sejam assassinadas. Guerreiros não matam pessoas indefesas, e não existe romantismo em homicídio. Somente mentes doentes conseguem justificar o assassinato dessa maneira.

Parafraseando o escritor inglês Gilbert Keith Chesterton, pode-se dizer que todo o homem que está disposto a matar ou morrer por uma ideia é porque dela não tem uma ideia muito clara.

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Marcelo Harger

Opinião: Manspreading

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Manspreading”

Madri está proibindo que os homens sejam espaçosos no transporte coletivo. O termo aem Inglês é “manspreading”. Foi difícil compreender o que isso significava até que vi a foto do cartaz da proibição: um homem sentado com as pernas abertas e um “X”. O “X” não estava colocado “naquele” lugar. Estava colocado na parte superior do cartaz. Pelo menos isso. Essa postura corporal seria ofensiva às mulheres.

Descobri que há também o “mansplaining” e o “manterrupting”. O primeiro consiste em explicar a uma mulher, de uma maneira excessivamente didática, fatos óbvios ou já conhecidos. O segundo consiste em interromper constantemente uma mulher ao falar.

As feministas alegam que há manifestações normalmente invisíveis, mas com potencial opressivo contra as mulheres. Segundo elas o machismo mora nesses pequenos detalhes. Seriam formas de sexismo cotidiano a exemplificar o privilégio masculino.

As feministas que me perdoem pelo que vou passar a escrever agora. Peço desculpas antecipadas, porque talvez esteja sendo machista sem saber, mas essas palavras são um despropósito. Os homens sentam-se de pernas abertas porque tem no meio delas algo que as mulheres não possuem. Sentar de pernas fechadas gera desconforto. Não se quer ocupar o espaço alheio. O que se quer é chegar intacto ao final da viagem.
Explicar demais pode ser gentileza. Pode ser vontade de se fazer entender. Talvez seja chatice, pois, segundo Millôr Fernandes, chato é aquele que explica tudo tintim por tintim e ainda entra em detalhes.

Interromper os outros ao falar talvez represente apenas ansiedade. Pode ser também falta de educação. Quem age desse jeito, no entanto, não se limita às mulheres. E, arriscando-me a apanhar das feministas, creio a quantidade de mulheres que incorrem nessas duas últimas práticas é igual ou superior à dos homens.

A razão para esses comentários não é espezinhar. É demonstrar inquietação porque coisas triviais são tratadas com importância desmedida. Vejo chegar o dia em que o cavalheiresco gesto de abrir a porta do carro para uma dama entrar se torne uma ofensa. Será a vez do “mansopendooring”.

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