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Marcelo Harger

Opinião: Sofrendo a vida

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Sofrendo a vida”

Sofrer é bom. Mentira. Sofrer é ruim. É ruim, mas é bom. Trata-se de uma daquelas incongruências do ser humano. Há coisas que são boas e ruins ao mesmo tempo. Ninguém gosta de sofrer, mas é impossível deixar de reconhecer que é o sofrimento que forja a alma das pessoas. É como o fogo que transforma um pedaço de ferro em aço, e esse aço numa lâmina pontiaguda. Sofrer torna o ser humano melhor. Faz crescer.

Uma vida calma raramente produz grandes feitos. As grandes descobertas da ciência, as maiores obras de arte, as melhores poesias e as músicas mais sublimes foram o resultado da criação de almas atormentadas. Foram pessoas que sofriam, mas se recusavam a sentir a sua dor em silêncio. Partilhavam com o mundo a própria angústia e fizeram com que o próprio sofrimento não fosse em vão.

Alguns mostraram aos que sofrem que não estão sozinhos. Outros tornaram o mundo melhor com uma nova ideia, um invento, uma palavra de alento ou um som inigualável. Fizeram isso porque se recusaram a sofrer de modo ruim.

Sofreram de modo bom. Transmutaram a própria dor em algo positivo. Criaram. Transformaram toneladas de limões em vários litros de limonada e apaziguaram a sede de milhares de pessoas.

O fato é que a vida envolve sofrimento. É impossível viver uma vida inteira sem um único dia de sofrimento. Apesar de ser impossível evitá-lo, é possível mudar a forma como nos relacionamos com ele. Podemos descobrir o motivo que nos faz sofrer e rompermos com ele. Removendo a causa removeremos o efeito.

Marcelo Harger

Opinião: Passarinhando em liberdade

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Passarinhando em liberdade”

Liberdade é algo que não se define. Vive-se. Senti-la é fácil. Explicá-la é difícil. Há quem prefira dizer que é um sentimento. Para esses, seria sentir o que se deseja independentemente da opinião dos outros. Há quem foque a liberdade de pensamento, e afirme que ser livre é pensar o que se quer. Essa é a linha Gandhi, que ensinava que “a prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência”.

Outros salientam a liberdade de expressão, e afirmam que ser livre significa o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir. Voltaire celebrizou essa espécie de pensamento ao declarar: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”.

Liberdade é tudo isso e mais um pouco. É impossível traduzir em palavras aquilo que somente se pode sentir. É como se fosse o oxigênio da alma, e esse é o grande problema.

Uma alma oxigenada “faz poeira”. Aqueles que têm medo da bagunça logo optam pela “arrumação”. Atacam com metralhadoras pessoas que em sua defesa apenas tem a palavra.

É que liberdade é uma daquelas coisas que são atraentes enquanto promessas, mas se tornam enlouquecedoras quando efetivamente se cumprem. Ser livre ofende, e há pessoas agredidas ao redor do mundo pela injúria de serem excessivamente livres. Outras são presas pela mesma razão.

Bater e prender não adianta. A opressão é como água em estrada de terra. Reduz a poeira, mas não resolve o problema. Basta um dia de sol para que ela ressurja com ainda maior vigor. Liberdade se combate com liberdade.

Aqueles que pensam somente são subjugados por argumentos, jamais por impedimentos. Tornam-se mais livres quando cercados por muralhas, e valorizam ainda mais aquilo que perderam. É por isso que os maiores escritos sobre a liberdade foram feitos no cárcere. O preso de consciência passa a ter unicamente o objetivo de perpetuar a sua liberdade de pensamento. É certo que a tirania nunca dura para sempre. Parafraseando o poeta Mário Quintana, todos aqueles que ficam por aí atravancando o caminho passarão. Os demais passarinham.

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Marcelo Harger

Opinião: Tédio ou Sofrimento

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Tédio ou Sofrimento”

• atualizado em 10/05/2019 às 11:15

Assisti recentemente a um filme no qual um menino começava a estudar filosofia e soltava frases de efeito na frente dos pais. Ao ser enviado para fazer os seus deveres escolares, o menino reclama: isso é um tédio! Em seguida cita uma frase filosófica dizendo que: na vida temos que escolher entre o tédio e o sofrimento.

O pai de chinelo na mão retruca prontamente: você quer o sofrimento? O menino obviamente opta pelo tédio e vai fazer os deveres.

Ao ver esse episódio, lembrei-me imediatamente de um ensinamento que desde cedo me foi ministrado pelo meu pai. Há coisas que tem que ser feitas independentemente de gostarmos ou não. Fazer o que se gosta muitas vezes significa apreender a gostar do que se faz.

Tarefas difíceis podem ser feitas com prazer ou sem prazer. Terão que ser feitas do mesmo jeito. Não há opção. Reclamar apenas serve para atrapalhar, pois a reclamação reforça a resistência interna que já temos. Se algo é chato ou difícil é melhor executar logo. Fazer por primeiro serve para acabar logo com o sofrimento. O espírito deve sempre ser o de transformar o limão em uma limonada.

Ninguém consegue passar uma vida inteira sem quaisquer problemas. Não há como remediar esse fato. É um dado da vida. É ela que não tem remédio. Reserva momentos bons e ruins para cada um de nós. Algumas vezes gostaríamos de encontrar um propósito para os problemas. Gostaríamos de ter a certeza de que alguém está apenas a nos ensinar uma lição e que tudo ficará bem no futuro. Isso, contudo, é impossível de se saber. É certo que coisas ruins acontecem às pessoas boas. Usar o que nos acontece como motivação para a evolução pessoal, no entanto, depende de cada um.

É certo que diante de cada dificuldade o pior obstáculo é o próprio ser humano. Cada homem é o pior inimigo de si próprio. Ter essa percepção abre novas possibilidades para enfrentar os problemas. Encarar é o único modo de vencer a “corrida”. Fugir somente serve para que fiquemos para trás e há quem fique tão atrás que acha que está liderando.

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Marcelo Harger

Opinião: Vivendo a milhão

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Vivendo a milhão”

Bom é viver a mil. A mil é pouco? Então a milhão. Nos dias de hoje a palavra de ordem é adrenalina, agitação. Sentir emoção não basta. Tem que ser forte, imensa, arrebatadora. Senão não vale. E para manter o padrão tem que aumentar cada dia. Viver um amor não é suficiente. Tem que ser um grande amor e os gestos de amor enormes. Uma flor não serve. Começa com um buquê e vai crescendo até que seja um caminhão.

Sobra exagero. Falta simplicidade. Sobeja exigência. Escasseia a sensibilidade. Agir é sempre com impulsividade, jamais com moderação. Sobra ímpeto, falta prudência. Carpe diem. Aproveite o dia é o lema, mas há muito carpe para pouco diem.

O mote é abaixo a rotina. E ela realmente veio abaixo, mas deu a volta por cima. Quando não há rotina a falta dela torna-se rotineira e ela ressurge vitoriosa.

Traz consigo para comemorar a vitória alguns amigos: cansaço, medo, ansiedade e depressão.

Cansaço por haver esforço demais. Falta energia para suportar nas costas o peso de tanta emoção.

Medo de não conseguir manter o padrão. De não atender as expectativas. De nem mesmo saber o que fazer para impressionar depois de encher de flores um caminhão.

Ansiedade porque o dia está correndo e é preciso aproveitá-lo. Já passou um minuto e ainda não se fez nada diferente. A rotina esta vindo, a rotina está vindo! Rápido, rápido é preciso sair de casa. E essa correria torna-se o dia a dia.

Depressão. Tristeza profunda, porque a vida parece vazia, sem significado. Sem futuro e sem passado. Sem marcas do que se fez de bom. Sem perspectivas pra o futuro.

É falta de lirismo, de saborear pequenos momentos. Não é possível ver o sol se por com pressa. Há coisas que não tem preço. Parece propaganda de cartão de crédito, mas é verdade. Aquele papo gostoso em família. A risada de uma criança. Caminhar na chuva. O beijo há muito esperado. Os momentos deitados em uma rede. Os filmes vistos nos dias de chuva. O som simples e singelo de um violão na beira da praia. Passear de mãos dadas. A poesia mal escrita, mas mesmo assim tão linda. Nada disso é tão imenso, mas é profundo. Instantes que duram a eternidade.

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