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Marcelo Harger

Opinião: Saudades do passado

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Saudades do passado”

Recebi de um amigo uma foto antiga. Foi tirada há mais de vinte anos. Nela, além de mim, estava um grupo de jovens que fora estudar inglês no exterior com o Phil Young. Não era somente na escola de inglês. Era com o Phil mesmo. Ele também estava na foto, e era o professor da minha turma.
Vendo o meu rosto jovem e ingênuo, sem quaisquer rugas, entrei em uma onda de saudosismo. Senti saudades daquela época. As coisas eram mais simples. Iniciando a faculdade de Direito. Poucas obrigações. Muitos sonhos. Praticamente três meses de férias. Brincando de músico em bandas de garagem. Pensando bem, eram de garagem enquanto eu estava nelas. Foi só eu sair que a turma fez sucesso na cidade. As duas bandas. A “Displicência” e o “Atrito”. Certamente fiz uma boa opção em encerrar a carreira de músico, e me dedicar ao Direito.

Foi, no entanto, importante lembrar essa época. Fechando os olhos pude rever mentalmente vários dos amigos que hoje só encontro no Facebook. Lembro-me do rosto de todos eles. Para mim parece que não envelheceram. Consigo revê-los com os cortes de cabelo esquisitos e as roupas, que hoje parecem ridículas, que usavam: Cristóvão, Baby, Alexandre, Maurício, Carlos, Afrânio, Digo, Carla, Milane, Dani, Lu e todos os “Marcelos”. Marcelo era um nome tão comum que certa vez havia sete na mesma sala. Todos eram chamados pelo sobrenome. Lembrei também do Clóvis que já se foi, e de muitos outros.

Enquanto escrevia fui revendo tudo e todos, e lembrando dos velhos anos 80. Para mim foi vida, e não uma festa “flashback”. O primeiro beijo no banco do colégio. Os campeonatos de tênis, em que viajávamos na Kombi. A tradicional viagem para o Rio de Janeiro do Colégio Bom Jesus na oitava série. Os vários amores que eram pra sempre, mas que mal duravam um mês. A festa em que impulsionados pelo videoclipe de Michael Jackson, fomos vestidos de “gangue” usando jaqueta e óculos escuros. As rodas de violão na praia e na casa da Maria José. O meu coração foi se enchendo com a sensação de que aquela época foi a melhor de toda minha vida.

Subitamente sinto algo cutucar o meu pé. Era uma mão “pequenina”. Olho para baixo, e vejo o Pedro sorrindo debaixo da escrivaninha querendo brincar. Creio que foi Deus que encontrou essa doce maneira de ajudar a terminar o artigo e também de lembrar-me que o momento em que sou mais feliz é agora.

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Marcelo Harger

Opinião: Jurassic Park

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Jurassic Park”

Levei as crianças para passear na pacata cidade de Pomerode, próximaa Joinville. Passeio ótimo para um sábado ensolarado. Visitamos o jardim zoológico aonde vimos leões, tigres, zebras, ursos, hipopótamos e outros animais.

Martina arregalava os olhos para tudo e Pedro queria ver os pinguins. Saindo do zoológico visitamos o maior ovo e a maior árvore de páscoa na “Osterfest”, festa municipal comemorativa da páscoa.

O ponto alto, no entanto, foi o parque dos dinossauros. Ponto alto, por várias razões. Em primeiro lugar porque as crianças adoraram. Em segundo lugar porque havia brinquedos daqueles nos quais as crianças sobem, e ficam andando entre obstáculos nas alturas. Pedro foi logo subindo.

A Martina, de dois anos, não ficou atrás. Quando percebi já havia subido. Como todos sabem, não basta ser pai, tem que participar. Lá fui eu subir no tal brinquedo para cuidar da pequena, que dava gritinhos de felicidade.

Eu segurava os “ai meu deus” e “minha nossa senhora” tentando acompanhar a pequenina. Embora a placa dissesse que os adultos podiam se divertir também, o brinquedo não era feito para gente grande. Era preciso andar curvado ou engatinhar. Tive dor nas costas, no ciático e até “dor de cabelo”. Há quem diga que cabelo não dói. Para mim não doía até andar naquele brinquedo. Quem nunca sentiu dor de cabelo é porque nunca se sentiu dolorido de verdade.

Brinquei com a pequena durante os trinta minutos mais longos de minha vida. Quando minha esposa fez o sinal de “vamos embora” surgiu o último problema: como descer daquela geringonça. O melhor caminho foi um escorregador de tubo verde e cheio de voltinhas. Cheguei ao chão desconjuntado, mas vivo. Isso é o que importa. Na saída do parque, ao ver as estátuas de dinossauros lembrei-me do filme Jurassic Park. Os atores faziam cara de corajosos ao enfrentar os bichos. Queria vê-los em Pomerode. Tenho certeza de que a cara seria de desespero.

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Marcelo Harger

Opinião: A melhor missa da minha vida

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “A melhor missa da minha vida”

Fazia tempo que não entrava na catedral. Entrei observando e vi as mesmas paredes de concreto, os mesmos bancos de madeira da época em que fiz catequese. Vi o padre Bertino conversando com algumas pessoas. Tinha o mesmo ar de homem santo de que eu me lembrava.

Fui com toda a família. Mãe, pai, irmã, esposa e filho. Era a primeira vez que levava o Pedro na igreja. Havia também avó, cunhado e tios. Estavam todos presentes para uma benção em virtude das bodas de prata de meus pais.

Quando a missa começou não consegui prestar atenção. A música parecia um zumbido ao longe. As orações soavam como um tímido barulho. Fiquei parado, quieto e quase em transe. Olhava vidrado para o Pedro que dormia no meu colo.

Acariciei seus cabelos, beijei a testa, peguei naquelas mãozinhas tão lindas e pequenas. Olhei para a boca tão perfeita e para a pele branquinha, sem qualquer mancha. Dormindo parecia um bebê, e não o menino sapeca que vive correndo pela casa. Meu coração encheu-se de amor.

Embora não prestasse atenção à missa senti-me em verdadeira comunhão com Deus. Somente um ser divino poderia criar algo tão perfeito quanto o pequeno ser, que estava ali em meus braços a dormir em meio aos cânticos religiosos.

Lembrei-me de como a minha vida mudou para melhor desde que o Pedro nasceu. Ele trouxe sentido para a vida. Um norte. Uma direção a seguir. Tornou-me um homem melhor.

A responsabilidade pela vida de um ser tão indefeso e ingênuo fez com que as escolhas fossem mais pensadas. A virtude tornou-se mais do que um dever. Transformou-se em uma obrigação. Ele certamente terá por espelho minhas atitudes. É um pequeno repetidor de tudo o que eu e minha esposa fazemos.

Decidi rezar. Rezei com o coração. Foi uma prece tão profunda como nunca havia feito antes. Pedi sabedoria para orientá-lo em meio às dificuldades da vida. Orei pedindo discernimento para conduzi-lo pelo bom caminho. Coloquei o destino do Pedro nas mãos de Deus e, quando finalizava a oração, a missa terminou. Não prestei atenção em nada do que ocorreu. Essa, contudo, foi a melhor missa de toda a minha vida.

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Marcelo Harger

Opinião: A lógica do vício

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “A lógica do vício”

Recentemente ouvi uma história horrível. Um advogado renomado no nordeste do país recebeu um ultimato de seu médico: deveria parar de fumar e ingerir bebidas alcoólicas porque complicações vasculares poderiam fazer com que tivesse as pernas amputadas.

O paciente que recebeu a terrível notícia é pessoa extremamente inteligente e esclarecida. Faço essa observação, porque a conduta que se espera de alguém com essas características, ao receber notícia tão drástica, é parar imediatamente de fumar e beber.

Não foi isso que fez o cidadão em questão. Passou a calcular o tempo que utilizava as pernas e fez uma conta estarrecedora. Passava oito horas dormindo, nove horas sentado trabalhando no escritório, uma hora sentado almoçando, uma hora sentado jantando, duas horas assistindo televisão, sentado, uma hora no trajeto ida e volta para o escritório também sentado no carro.

Observou também que as duas horas restantes eram gastas alternadamente entre momentos sentado e em pé. Chegou a conclusão de que preferia continuar a beber e fumar porque poderia prescindir dos poucos minutos diários nos quais utilizava as pernas. Criou uma justificativa lógica para justificar o fato de que brevemente teria as pernas amputadas e passaria o restante da vida em cadeira de rodas.

O interessante é que jamais reconheceu que o vício era mais forte que ele. Sempre afirmou que era uma escolha consciente, e que poderia largar o fumo e o álcool no momento em que quisesse. Não o fazia porque preferia o prazer que eles lhe proporcionavam à parte não importante de seu corpo representada pelas pernas.

Vício é algo terrível para todos, mas é pior quando ocorre nas pessoas inteligentes. Racionalizam a própria dependência para justificar algo que diante dos outros é bizarro. É a lógica do vício, que somente consegue ser superada a partir do momento em que o viciado consegue perceber que tem um problema. Antes dessa percepção qualquer esforço dos familiares e amigos é vão. Resta apenas rezar para que adquiram a consciência antes de perderem as próprias pernas.

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