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Opinião: É seu, é meu, é nosso. Uma teoria sobre o capitalismo infantil

Confira a crônica do juiz do trabalho Daniel Nonohay, sobre o capitalismo infantil e o que isso acarreta.

• atualizado em 27/03/2017 às 22:27

Quando a minha filha mais nova fez dois anos, aprendeu a dizer “é meu”. Ela vê o brinquedo que deseja, pega-o com as suas mãozinhas, traz para o peito, olha severamente para o interlocutor e sentencia.

— É meu!
Ela compreendeu como verbalizar a apropriação. Ela quer algo, toma-o e declara a sua propriedade. O doce? É dela. O celular na minha mão? É dela. Eu? Obviamente sou dela também.

No início, achei um amor. Os pais se derretem com esses sinais de evolução. Essas microdemonstrações de tirania (as mesmas que, no filho dos outros, geralmente qualificamos como decorrentes de uma má educação por pais relapsos).

Por mais que façamos beicinhos de aprovação, em algum momento faz-se necessário ser pai e contrapor aquele argumento de propriedade.

– Filha, não é “teu”, é “meu”. Ou “é nosso”. Ou “é dela”. Ou, os mais complexos, “não é de ninguém” e “é de todos nós”.

E, assim, jogamos a criança num mar de incerteza; no mundo dos conceitos fluidos e antinaturais. No pequeno olhar, onde havia a certeza da posse, passa a existir a vagueza da incompreensão, a raiva da pela desapropriação e, por fim, a firmeza da resistência.

Eu nunca expliquei para ela o que significava “é meu”. Foi um conceito que ela adquiriu sozinha, pela mera observação da prática ao seu redor. Demorei umas duas semanas explicando o significado de “é teu”. Não é tão difícil, pois é apenas um “é meu” ao contrário. Claro que, às vezes, ela não concorda com o “é teu” ou finge se esquecer que ele existe, mas isso é outra história.

Estou, contudo, há mais de um mês tentando explicar o significado de “é nosso” e sequer sei por onde começar “não é de ninguém” e “é de todos nós”. São conceitos difíceis, abstratos e sofisticados, que foram desenvolvidos para mentes um pouco mais elaboradas.

E isso me faz pensar um pouco sobre o momento político que estamos atravessando.
Não vou cair na armadilha óbvia e primária da dicotomia entre “esquerda x direita”, “capitalismo x socialismo” ou qualquer outros desses rótulos fáceis e malcompreendidos.

(Se você precisa me rotular, se não pode conviver nas zonas cinzas e sente absoluta necessidade de me colocar em algum compartimento mental identificado com grandes etiquetas, pode escrever na minha “capitalista solidário”. Não, isso não existe!, acusaram alguns amigos próximos ao ler a crônica. Acho que existe, sim, embora seja uma espécie em extinção pelo desuso).

Vou dizer, apenas, que a capacidade de se apropriar das coisas que necessitamos é inerente e foi essencial para a sobrevivência dos primeiros humanos. A capacidade de dividir, porém, permitiu nossa evolução em sociedade. A segunda veio quase junto, mas, mesmo assim, não de forma concomitante com a primeira.

Para uma sociedade sair da barbárie (ou para não retornar a ela) e se desenvolver são necessários sentimentos e ideias coletivas de empatia, alteridade e solidariedade. Assim como educamos nossas crianças a não fazer mal aos outros, a ajudar o próximo e a respeitar as diferenças, temos que fazer um exercício conjunto e adulto destas qualidades.

Esses sentimentos e ideais traduzem-se em providências simples e com as quais a grande maioria concorda. Não deixar outros morrerem de fome. Educar. Permitir que outras pessoas saiam da ignominiosa pobreza. Estabelecer uma igualdade de direitos básicos entre todos. Respeitar as minorias. Respeitar as diferenças individuais. E assim por diante.

Outras providências ainda se fazem necessárias, mas não são tão simples. Como tributar grandes fortunas e ou heranças, por exemplo, a fim de impedir que famílias vivam gerações com base exclusivamente na renda. Ou para evitar que 1% da população tenha a riqueza equivalente a de 50%.

Aí, a discussão é obliterada pela falta de entendimento. E, não bastasse a incompreensão, aqueles a quem não interessa esta conversa jogam sobre ela um manto de ódio e de medo. Voltam os rótulos. Óbvio que nada de produtivo pode ser extraído de um debate público nestes termos.

E continuamos todos assim, com nossas coisas junto ao peito, defendendo de forma infantil o que “é meu”.

Por Daniel Nonohay
Juiz do trabalho

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Marcelo Harger

Opinião: Errar é humano

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Errar é humano”.

• atualizado em 02/11/2018 às 15:12

Errar é humano. É o que se diz. Apesar disso os erros, sejam grandes ou pequenos maculam. Ninguém leva em conta as milhares de vezes que acertamos diariamente. Um erro, no entanto, é pra sempre lembrado. Todos os acertos juntos não servem para apagar um único erro.

Um erro basta para que passemos a ser considerados com todos os defeitos e nenhuma virtude. As pessoas más adoram espalhar rumores e as boas são muito tímidas ao conferirem aplausos.

Não são somente os maus que agem errado. As pessoas boas também erram. Erram muito mais do que deveriam. A diferença é que sofrem com os seus erros. Quanto melhor é a pessoa, pior o sofrimento e maior a publicidade que os demais darão à falta praticada. Ninguém tem interesse em contar pra alguém que uma pessoa torta errou novamente. Aquele que é direito, quando age errado, vira notícia. Todos sentem uma felicidade sádica ao saber que aquele que é considerado modelo de conduta para todos tem suas fraquezas.

O homem de bem sofre quando vê o seu erro exposto. Envergonha-se a ponto de não querer sair de casa. Sofre porque a retidão do seu caráter faz com que tenha uma percepção distorcida, que acaba por tornar o malefício praticado mais grave do que realmente foi.

O único modo de superar a vergonha é manter a cabeça ereta e encarar as consequências dos erros praticados. Há males que não podem ser reparados. Não se pode voltar atrás e engolir de volta as palavras ácidas proferidas para um ente querido em um momento de fúria desmedida. Resta apenas continuar vivendo e se esforçando para não mais errar. Todo ser humano já praticou algum ato do qual não tem orgulho. O importante é evitar repetir os erros e aprender com as faltas praticadas, porque aquele que nunca errou é porque nada fez que merecesse valor.

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Marcelo Harger

Opinião: Filho

Na coluna de Dr. Marcelo Harger desta semana, leia: “Filho”.

“Filhos? Melhor não tê-los. Mas se não os temos como sabê-lo?” Essas são as estrofes iniciais de um poema de Vinícius de Morais chamado Poema enjoadinho.

Ao contrário do que se depreende da estrofe inicial não se trata de dizer que não é bom ter filhos. O poetinha faz uma comparação entre aqueles que são pais e os que não o são.

Crianças são problema. Dormem quando queremos que fiquem acordadas e acordam quando queremos que durmam. Fazem coco e pipi na cama. Largam brinquedos por onde passam. Quebram coisas. Derrubam copos e pratos durante o jantar. Choram. Exigem cuidados em tempo integral. Desaparecem na menor desatenção. Enfiam o dedo na tomada, engolem botões, bebem detergente, queimam a mão, debruçam-se na janela, ficam doentes e muito mais. Qualquer um que ler essa lista fica cansado, mas se for pai se identifica. É um verdadeiro horror e os “não-pais” assustam-se com isso.

Não imaginam, no entanto, a proximidade que todas essas coisas trazem entre dois seres. Crianças são extremamente dependentes e essa dependência encanta, pois somente conseguem sobreviver ao mundo com o apoio dos pais. Cometem diabruras, mas não há maldade. Há falta de compreensão do mundo que as cerca. Como é bom ensiná-las o modo correto de proceder. Ouvir as risadas gostosas. Ver o olhar de admiração pela mãe mais bonita e o pai mais poderoso do mundo. A emoção das primeiras palavras e dos primeiros passos. As frases engraçadas que dizem. As coisas profundas que ensinam. A capacidade extrema de perdoar.

E o olhar de encantamento pelas descobertas mais simples? Que dizer então do abraço apertado e do beijo delicado que nos dão? Como esquecer das vezes em que com eles dormimos abraçados? E do cheiro gostoso que têm? E dos cabelos tão macios?

Os benefícios superam em muito as dificuldades. Filhos melhor é tê-los. E quando os temos como esquecê-los?

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Flávio Melo

Opinião: Medo! Supere-o pelo planejamento

Na coluna de Flávio Melo desta semana, leia: “Medo! Supere-o pelo planejamento”

O planejamento é utilizado para mapear o caminho que a pessoa irá trilhar para alcançar o seu objetivo. Dessa forma, a pessoa sabe o que precisa fazer e consegue manter o foco no que é necessário. Porém é bastante comum haver desistência do que foi planejado, e um dos fatores predominante é o medo. Uma emoção que faz a pessoa paralisar, ou ficar numa situação tão insegura que ela não se vê em condições de enfrentar seus receios e, por conseguinte, tende a evitar as adversidades.

O medo faz a pessoa modificar organicamente seu corpo, diante de um perigo ocorre o estresse, que é uma resposta positiva do organismo se preparando para enfrentar o perigo ou fugir. Mas em algumas situações, ao invés disso, ocorre uma contradição, a pessoa quer fugir, mas em vez de se afastar do perigo, sente uma fraqueza tão grande em suas pernas que ela paralisa. Em situações mais severas, chega a ter diarreia. Toda essa reação do organismo, mesmo não tendo o efeito efetivo, é para a pessoa se proteger do que ela considera perigoso.

Em outras ocasiões, o perigo está no resultado a alcançar; muitas vezes está no meio do caminho, alguma ação que precisa ser realizada, mas colocam em xeque a segurança da pessoa e acabam não sendo nem mesmo enfrentadas. Por exemplo, a pessoa precisa divulgar determinado trabalho, e para isso decide falar em público; depois de tudo planejado se dá conta que tem medo de fazer essa ação. Fica apavorada só em pensar em enfrentar as pessoas, antecipa que dará um branco no pensamento e não conseguirá falar e consequentemente irão rir dela. Isto é tão forte que desiste de falar. Com isso não cumpre o que foi planejado e não vai adiante, desistindo do que se propôs.

Pode-se dizer que o medo paralisa, ou faz a pessoa evitar enfrentar seusreceios. Então o que fazer? Utilizar o próprio planejamento para superar seus medos e buscar de forma objetivo seus sonhos. Da mesma forma que se planeja uma ação mais ampla, é possível planejar de forma detalhada cada uma das ações e, ao fazer isso, se combate o medo. Pois a consciência reflexiva passa a ter como objeto da sua atenção o EU, e ao fazer isso, ela toma distância do contexto que está vivendo e destrói a estrutura da emoção. Por exemplo, quando a pessoa, em alguma situação mais difícil, pensar “o que eu devo fazer?”, ela o faz sem emoção, pois a estrutura básica que a emoção necessita para ocorrer é a pessoa estar de tal forma envolvida com a situação, que ela não tem distância entre o que vai ocorrer e ela. O elemento essencial para isto é a crença, crer é acreditar com todo o seu corpo que suas antecipações irão ocorrer, pois são a mais pura verdade.

Para escapar do medo, corte a crença do fracasso através do pensamento “o que EU devo fazer?” e planeje os próximos passos. Parece fácil demais para ser verdade, mas essa é uma daquelas coisas da vida que é simples e dá resultado.

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